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2 de julho de 2012

Lembras-te de Mohammed Bouazizi?

(como recuperar a memória do confronto)

escrito por "Vadio"

Eu sei que te recordas, facilmente te recordarás: era aquele jovem que vendia fruta e legumes em Sidi Bouzid. Imolou-se, e veio a morrer dias depois em consequência da imolação.

Bouazizi tinha um diploma como tu; desemerdava-se com o seu carrinho ambulante, tal como tu te orientas com as tuas merdas, para contornar o abandono a que te sentes votado pela sociedade, pelo Estado, pelo mundo que te rodeia. Bouazizi já não tinha sequer a solução da emigração, porque a nossa querida Europa deixou de precisar “deles”, sabes como é: abriu-lhes as portas quando dava jeito para enriquecer mais um pouco e depois atira-os ao mar, bye bye, hasta la vista.

Não queria começar a falar num tom mais sério, porque estamos todos tão fartos que já nos fartamos de tudo. Estamos fartos de ler o jornal, fartos de receber emails, fartos da mesma conversa na rua... Não queria que me compreendesses mal. Se escrevo, não é para fazer-te mal, mesmo se por vezes pareço estar contra ti por causa das interrogações que me parecem necessárias para atravessar o deserto de olhos abertos. Pensar em determinados ângulos de visão só nos fará bem. Mas não os tomes como pontos fixos. Nem de fuga à realidade, aquela que nos espera fora dos plasmas, das redes sociais, dos textos de circunstância.

...então, se estás embebid@ neste interminável programa organizado de intoxicação dos teus neurónios e se apanhas, a toda a hora, socos no estômago, diz-me, será que podes ouvir o que tenho para dizer? Será que o teu mal-estar pode ser provocado por um simples texto? Será que é a mim e a outr@s, cada qual à sua maneira, que te dão um treino menos digestivo ao estômago, que deves rechaçar de uma assentada e, na maioria das vezes, por reacção emocional, as perguntas que te damos? Não te iludas, não são as “perguntas” que te encostam contra a parede. As “perguntas” apenas te impedem de não ver o que teimas não querer ver: que a parede já lá estava e continua a ser construída; que tu, e eu, e tantos outr@s, estamos cercados, por todos os lados.

Dá-me o benefício da dúvida: não te apresses a compreender-me, às minhas palavras, se gastas tanta da tua compreensão, no dia-a-dia, para encaixares o mal-estar que te provoca este tempo de impostura política, de opressão social, de barbárie humana e ecológica. Repara: o patrão exige-te a qualquer momento que lhe obedeças e que o ouças, dita-te tudo tim tim por tim tim, ou tem alguém que faz isso por ele, e tu comes e calas; o governo sussurra-te todos os dias aos ouvidos, naquele ar contido e esgazeado dos tecnocratas, uma melopeia cínica, pedindo-te encarecidamente que acredites na mentira, que engulas a austeridade como inevitável e para todos, e que as medidas governamentais, determinadas pelo círculo dos máximos responsáveis pela conjuntura social actual, são para o bem comum, em suma, o governo manda-te rever por baixo a tua condição de explorado, oprimido, humilhado, e pede-te estabilidade, sacrifício, contenção, ordem; a TV entra-te pelos olhos dentro e desvia para canto a realidade, desvia-te da tua realidade, uma espécie de narcótico, cujo contrabando está nas mãos de um cartel de elite, hábil na fabricação da realidade, exímios ficcionistas sociais; os bancos esmifram-te o que tens e o que não tens...

Porquê isentarmo-nos da realidade? A realidade não é uma conclusão? A destruição do bem-estar da tua vida por uma ordem económica e autoritária não é uma conclusão? A morte brutal de milhares de iraquianos não é uma conclusão? A eliminação do sistema público de saúde não é uma conclusão? A perda contínua de direitos laborais não é uma conclusão? O alargamento do fosso entre ricos e pobres não é uma conclusão? (Conclusão essa num contexto de crescimento económico...!) A hipocrisia dos discursos dos governantes não é uma conclusão? O poder discricionário das agências de rating não é uma conclusão? A desastrosa cultura anti-ecológica dominante não é uma conclusão? Guantánamo não é uma conclusão? Polícia à paisana a bater e prender manifestantes numa rua de Lisboa, não é uma conclusão? Alguns também me chamarão de trágico, quiçá de vate.

Sei que te apressas também a pedir-me brandura, que escreva o que tenho a dizer como se tratasse de uma tese e dedicasse o último parágrafo à síntese, às conclusões. Em suma, que ordenasse os factos e os acontecimentos sem os interrogar ou pôr em causa. Por outras palavras, aceitando-os, isentando-me de interrogar a realidade, esse pobre papel levado tão a peito pelos jornalistas*.

O Vale do Ave e o Grande Porto são tradicionalmente as regiões do país com as taxas de sucídio mais baixas. No Ave, ainda entre 1996/99, suicidava-se uma pessoa por 100 mil habitantes, bem longe da realidade do Alentejo, onde em alguns concelhos mais de 30 pessoas por 100 mil habitantes cometem anualmente suicídio. Sabe-se também pelos dados existentes que são sobretudo os homens que se suicidam. E a diferença, em relação às mulheres, é significativa.

Nos últimos anos, na região do Ave, a realidade parece ter mudado abruptamente. Em 2010, um alto responsável de saúde falava em mais de 30 suicídios nesta região. O director do Departamento de Psiquiatria e Saúde Mental do Centro Hospitalar do Alto Ave afirmava que “num ano fizemos 15 mil consultas, 200 internamentos e temos seis mil pessoas em atendimento continuado”, por motivos de saúde mental. Outra técnica do mesmo serviço hospitalar, referindo-se ao problema do suicídio e apenas no Alto Ave, explicava “que num só ano de avaliação destes casos foram 162 as tentativas de suicídio na região do Alto Ave, 128 das quais perpetradas por mulheres e 34 por homens”.

Que circunstâncias podem explicar esta alteração súbita e, principalmente, que razões podem explicar esta disparidade relativa entre as tentativas de suicídio das mulheres, que agora se sobrepõem exponencialmente às perpetradas pelos homens?

Será da depressão acentuada do Vale? Condições orográficas específicas? Masoquismo genético por consanguinidade geográfica? Valerá a pena fazer as contas? Determinar a percentagem de crescimento do suicídio feminino? Estabelecer o índice de suicídio X, ípsilones acima da média habitual para a região? Porque se apaga este desesperante mal-estar social? Por que razão até hoje nenhum suicídio do Vale do Ave foi visto como um acto de desespero político? Acharás também que o facto de a prostituição feminina ter aumentado visivelmente no Ave é uma questão de gosto pessoal? Economia alternativa? Ali abundam factos que estabelecem a ligação da lógica de poder capitalista ao patriarcado. Observa-se como os fins lucrativos do mercantilismo, ao assentarem numa visão patriarcal, ganham rentabilidade ao fazerem perdurar uma discriminação sobre a mulher, que sofre uma “dupla” opressão conjugada.

A prostituição e o sucídio são gestos extremos. Gestos carregados até à boca com o silêncio. Ou, mais precisamente, carregados pela atmosfera de silenciamento. Gestos coagidos a reprimirem o próprio grito. E esses gritos reprimidos, se audíveis fossem, atingir-nos-iam. Como nos atingiu a imolação de Mohammed Bouazizi. E se ninguém havia reparado nisso é porque as estruturas sociais que determinam o que é e não é político lavam a humilhação a que homens e mulheres anónimos estão submetidos e sublimam o sofrimento humano através do prozac; do gabinete do psicólogo, que encerra a humilhação económica e espiritual em causas individuais; através dos padrões de sucesso e insucesso moldados pelo omnipresente central-shopping, essa amável atmosfera de luxo e falsa abundância; através do culto ao artigo-consumidor, do Ferrari do patrão à publicidade, esse programa contínuo das televisões; através da impostura dos Centros de Emprego, pressionando os desempregados (já em si fragilizados pelas condições de violência económica que enfrentam) a aceitarem a integração na máquina exploratória, ou promovendo acções de formação compulsivas, que qualificam para melhor produzir, ou seja, para tornar mais eficiente a exploração, sem qualquer intuito de fortalecer os recursos dos trabalhadores para melhorarem a sua condição laboral; enfim, apaga-se a condição do suicidado pela sociedade através da destruição dos laços comunitários e, nessas latitudes nortenhas, ainda com a excomunhão da alma-penada católica. Esse apagamento planeado das razões políticas e sociais do mal-estar humano, enfraquece-nos e destrói o sentimento de pertença a um colectivo, tudo aquilo que, a pouco e pouco, serviu e serve a renovada estratégia do neoliberalismo, o braço cultural do capitalismo: fazer crer que cada um de nós é um corpo-autómato que vive separado da realidade dos outros... tudo aquilo que engendra as condições óptimas de inércia e isolamento, a ponto de a cultura dominante ter feito de cada um de nós uma espécie de técnico de assistência à eutanásia colectiva.

22 de março de 2012

Sobre a democracia: A democracia e a sua usurpação (1ª parte)

Sumário

1 - Um contexto civilizacional para mudança urgente
2 - Estado não rima com democracia
3 - Exemplos democráticos na Antiguidade
      Ciro, o Grande, rei dos persas
      A democracia ateniense
4 - Factores de neutralização da participação democrática

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1        -  Um contexto civilizacional para mudança urgente

A representatividade de todos imputada a alguns, escolhidos por eleições é um princípio demasiado vago para ser aceite, levianamente, sem observação detalhada. A sua aceitação, nesses termos vagos é uma emboscada em que se quer fazer tropeçar a multidão para perpetuar o domínio de todos por uns poucos, fazendo crer aos incautos que esse domínio é benfazejo, tão natural quanto perene, a única forma de gestão da vida pública. E que, portanto, deve ser despreocupadamente consentido.

Esse paradigma, como todos, compreende uma dinâmica, resultante de interações várias, entre as quais:

  • a pressão de forças sociais excluídas do sistema de representação;

  • formas de racionalidade que tendem a forçar, se não a substituição desse paradigma por outro, pelo menos a sua contínua melhoria;

  • fórmulas defensivas ou mistificatórias conducentes à manutenção, no poder, de castas ou grupos sociais privilegiados.

Raramente se fala da dimensão temporal das fórmulas de representação actuais, sobretudo daquelas que vigoram no chamado Ocidente e mais ou menos seguidas ou impostas aos países do Sul, implicitamente considerados como bárbaros, com o dever de agradecida aceitação da superioridade civilizacional do Ocidente. Imposição essa, se necessário, através da fraude, do golpe de estado, do bombardeio ou do massacre, sempre e naturalmente, em nome do progresso.

Esse complexo civilizacional é uma herança do colonialismo, de se pretender, no Ocidente cristão, apontar a todos os povos uma obrigatória repetição de todos as experiências ocidentais, dadas como indiscutivelmente mais avançadas. Poucas décadas atrás - a título de exemplo - no império colonial português, os africanos eram segmentados entre assimilados (mais ou menos adoptantes da cultura do colonizador) e não assimilados, “selvagens” destinados à ação dos missionários empenhados na salvação das suas “almas”, do comerciante sequioso do produto do seu trabalho ou, dos militares, de mão pesada para impor a lei e o respeito pela bandeira aos recalcitrantes. Era o domínio dos três “M” na feliz expressão de René Dumont (le missionaire, le militaire, le marchand), o triunvirato essencial do domínio colonial.

Finalmente, os interesses estratégicos ocidentais e das suas multinacionais sabem que o modelo de representação ocidental tem grandes virtualidades na estabilização política e na agilização da exploração dos povos, em comparação com modelos autoritários e tiranias pessoais ou de cariz militar. No entanto, a geopolítica cava muitas brechas nesse modelo, por exemplo, com a aceitação da “democracia saudita” e a recusa do governo palestiniano saído de eleições sem mácula, com a legitimidade dada ao corrupto Karzai e a diabolização do regime iraniano, entre muitos outros exemplos.

2 - Estado não rima com democracia

O modelo de representação ocidental actual ainda não tem um tempo de vigência superior ao da democracia directa grega, onde a mesma funcionou, mormente em Atenas. Nos casos mais antigos, o modelo ocidental de representação remonta apenas à segunda metade do século XVIII e apresenta cada vez mais nódoas de casos notáveis de excepções e atropelos à democracia.

Mesmo nesse horizonte temporal, o modelo ocidental, até tempos relativamente recentes, admitia demasiadas limitações, para se considerar democrático. Na França de 1848 admitia-se apenas a existência de 200 000 eleitores numa população de 30 M e, em 1867, o recenseamento eleitoral abrangia apenas 30%  da população activa. No mesmo ano, o sufrágio para a totalidade dos homens foi introduzido no Norte da Alemanha, adotado na Itália em 1912 e, na Inglaterra, em 1918; curiosamente, o mesmo ano em que o sufrágio chegaria às mulheres, na Alemanha. Em Portugal, o voto feminino surge em 1956, com muitas limitações e a sua universalidade só chegou depois do 25 de Abril.

A deturpação democrática para ganhar aceitação junto da multidão recorre a fórmulas diversas, de que se citam adiante alguns exemplos.  A inscrição de um “in god we trust” impresso nas notas de dólar, revela que a Wall Street – conhecida pelos seus pios comportamentos - utiliza o apoio divino para que os mortais aceitem aqueles rectângulos de papel, essenciais à acumulação das fortunas. Na democrática Inglaterra, não é permitido que os jornais ingleses defendam a instauração da república no país; isto é, os ingleses são obrigados a conviver “forever and ever” com a suserania simbólica da rica família Windsor. Mais recentemente, os governos europeus ou as suas câmaras de ressonância, os parlamentos, aprovaram o tratado de Lisboa, intervenções militares várias, os PEC e planos de austeridade - que mais se assemelham a extorsões - sem qualquer  procedimento democrático de consulta.