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4 de novembro de 2012

Os movimentos sociais e as vigarices sociais



Intróito
1 - O Congresso do Alterne
1.1 - Introdução
1.2 - Abordagem sociológica
1.3 – A Declaração do Alterne
2 – O grupinho “Que se lixe a Troika”

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Intróito

No seguimento de “A despolitização, o controlo social e as alternativas”[1] vamos tratar de dois exemplos recentes de controlo social sob a forma de falsas alternativas ou, de alternativas internas ao sistema capitalista e de democracia de mercado. São elas, o recente Congresso Democrático das Alternativas a que abreviadamente, chamaremos Congresso do Alterne, incluindo aí referências à IAC – Iniciativa para uma Auditoria Cidadã, cuja longevidade, sem trabalho que se veja, aponta para um caso de burla política – por nós há ano e meio denunciada; e, a uma escala menor, o grupo “Que se lixe a Troika”. Todos se apresentam, implicitamente, como instrumentos do capital e da plutocracia, do mandarinato cleptocrático, como putativos candidatos a um lugar no sistema, através do imundo trabalho de gerar falsas alternativas junto de pessoas, mormente jovens e, reconduzirem os protestos e a vontade de mudança para o seu redil de exploração e iniquidade, enquadrados pelos seus cajados de pastores ideológicos.

1 - O Congresso do Alterne
1.1 - Introdução

Como é evidente, não nos dignámos a pisar as alcatifas da Reitoria para assistir a um evento promocional, de propaganda eleitoral. Não tomamos anti-histamínicos porque suportamos bem os ácaros; mas, somos muito reativos ao bolor político ou à vigarice intelectual.

Pelos relatos que nos deram do auspicioso evento de dia 5 de outubro, infelizmente ensombrado pela pitoresca estória da bandeira pátria colocada às avessas e que desviou a atenção dos telejornais, a coisa acabou bem, numa beatífica unidade; e, para compensar os funestos acontecimentos da manhã com o Cavaco a içar o estandarte (a melhor figura para o efeito dado o seu cariz de decadente), os convivas do Congresso cantaram sisudos, compenetrados e unitários, o espantoso hino do “contra os canhões, marchar”. 

A propósito daquele hino e imaginando a compostura democrática dos 1700 convivas - na sua esmagadora maioria relegados à função de ouvintes, mudos e quedos - a entrar no auditório, lembrámo-nos de uma canção do Fernando Tordo, “A Tourada”, cuja letra a seguir reproduzimos:  


Não importa sol ou sombra
camarotes ou barreiras
toureamos ombro a ombro
as feras.
Ninguém nos leva ao engano
toureamos mano a mano
só nos podem causar dano
a espera.

Entram guizos chocas e capotes
e mantilhas pretas
entram espadas, chifres e derrotes
e alguns poetas
entram bravos cravos e dichotes
porque tudo o mais
são tretas.

Entram vacas depois dos forcados
que não pegam nada.
Soam brados e olés dos nabos
que não pagam nada
e só ficam os peões de brega
cuja profissão
não pega.

Com bandarilhas de esperança
afugentamos a fera
estamos na praça
da Primavera.
Nós vamos pegar o mundo
pelos cornos da desgraça
e fazermos da tristeza
graça.

Entram velhas doidas e turistas
entram excursões
entram benefícios e cronistas
entram aldrabões
entram marialvas e coristas
entram galifões
de crista.

Entram cavaleiros à garupa
do seu heroísmo
entra aquela música maluca
do passodoblismo
entra a aficionada e a caduca
mais o snobismo
e cismo...

Entram empresários moralistas
entram frustrações
entram antiquários e fadistas
e contradições
e entra muito dólar muita gente
que dá lucro as milhões.

E diz o inteligente
que acabaram as canções
.[2]



Como convém no âmbito dos próceres do trotsko-estalinismo, o conclave teria de evidenciar uma linha justa, a proposta pelos caciques que, sensíveis aos ventos democráticos, incluíram umas quantas alterações propostas pelas “bases”. Impensável mesmo, seria a não existência de um documento final, agregador, uma vez que na lógica unanimista e autoritária, não há lugar a um simples evento de cruzamento de ideias, à expressão da diversidade enriquecedora, à presença de debate entre alternativas distintas. O debate formal tem de se balizar pelas marcas previamente estabelecidas pelos “organizadores”, admitindo simples ajustamentos de pormenor. O modelo democrático seguido em março na Activar e na Primavera Global de maio, horroriza-os.

A censura[3] incidente sobre textos recebidos de inegável qualidade - e que conhecemos - muito acima da geral banalidade dos textos divulgados no site do Congresso, é reveladora do conceito de democracia vigente entre os promotores. O que fugisse aos estreitos parâmetros da verdade definida uns cem anos atrás nos cânones de Lenin ou Trotsky, ficou condenado ao banimento; entre alguns conhecidos escudeiros do Carvalho da Silva, perpassou certamente uma imagem de esquerdistas a caminho do Gulag. Enfim, assim se manifestou o lápis azul dos zelosos gauleiters dos interesses da burocracia político-sindical que ajuda a Troika e o governo a manter os portugueses mansos, obedientes e resignados. Para os promotores do tal Congresso, a democracia é apenas a permitida por esses interesses. São democratas ma non troppo. A Comissão Organizadora continuará em funções sem qualquer discussão sobre a sua composição, mandato ou votação legitimadora; afinal, também Stalin e Trotsky estavam no anfiteatro.

E ainda para que a convergência seja maior, são convidados para o grupo elementos do PS a quem se dá protagonismo, na procura de atrair outros membros daquele grémio, sem tacho ou, somente descontentes com Seguro, espécie de alter ego de Passos. O Congresso do Alterne surge, claramente, como uma tentativa do BE de apresentar uma fotocópia desbotada pelo tempo, da criação de um MDP/CDE, numa aplicação serôdia do “Rumo à Vitória” de Cunhal, como uma aliança de “portugueses honrados”, zangados com a postura neoliberal e conservadora dos seus referentes; afastando, vade retrum, anarquistas e esquerdistas avulsos de diversos matizes, renitentes em aceitar tutelas partidárias, também de acordo com a teoria e a prática cunhalista.


1.2 - Abordagem sociológica

Antes de nos debruçarmos sobre algumas das conclusões do Congresso do Alterne analisemos o perfil da base de apoio dos seus promotores, considerando como amostra a lista dos 3763 subscritores, a despeito da má qualidade dos dados disponíveis para efeito de apuramento estatístico. Essa despreocupação pela qualidade dos dados é reveladora de que aos seus promotores pouco importa proceder a uma avaliação das camadas sociais ou profissionais apoiantes mas, somente proceder a um exercício de propaganda, de fixação de crentes e não de enriquecimento democrático. Note-se que o número de subscritores foi mais do dobro dos participantes no evento; a internet favorece estas discrepâncias.

Escrutinámos os referidos subscritores do Congresso, em função das suas profissões ou situações laborais ou ocupacionais, tendo em atenção que os resultados que apresentamos não são somáveis, uma vez que muitas pessoas optaram por apresentar mais do que uma caraterização profissional ou social, sendo portanto considerados em duplicado. Observem-se em seguida, algumas conclusões:

·       O maior grupo dos subscritores - 543 (14.4%) - são paisanos reformados, independentemente da sua profissão, excluindo, portanto, o caso dos militares apoiantes que, serão também aposentados, dado que formalmente, quando nas fileiras, os militares têm de ser eunucos políticos. Os reformados aqui contados não são tomados em mais nenhuma categoria profissional ou de qualificação;

·       O segundo grupo individualizável é o dos professores, não qualificados como do ensino superior, adiante considerados. São cerca de 11.2% do total, havendo bastantes que são também sindicalistas, mandarins ou com outras ocupações; os professores do ensino superior são 6.7% do universo, havendo também muitos que contribuem para a contagem de grupos de qualificação profissional;

·       Os estudantes - sem se considerar doutourandos, bolseiros ou investigadores - são apenas 165. Esse escasso número atesta o grau de despolitização dos jovens que, nem o conservadorismo da esquerda lusa consegue atrair e, permite que se pense no desajustamento que há entre o interesse dos professores do ensino superior por este evento da esquerda institucional e o pouco entusiasmo que o Congresso, protagonizado por gente bem conhecida da dita esquerda, gera entre os estudantes. Há um problema de comunicação, de linguagem entre professores e alunos, entre gerações ou, o discurso conservador da esquerda institucional não se apresenta capaz de combater a despolitização e o desencanto dos jovens, beneficiando, naturalmente, o conservadorismo social “mainstream”;

·       Os bolseiros, doutourandos e investigadores, estão relativamente bem representados entre os subscritores do Congresso (148), num quantitativo muito próximo dos estudantes, em fase anterior da sua formação. A precariedade da sua situação económica, o caráter autoritário da tutela de muitos lentes, a maior maturidade inerente à idade e ao grau de conhecimentos, torna este conjunto interessado nas temáticas propostas. Resta saber, se se revêem nas conclusões apresentadas pouco democraticamente pelos caciques partidários, no recato dos gabinetes ou, se o seu interesse pelo Congresso não é a procura de um protagonismo conducente a um lugar de mandarim, assessor de mandarim ou correlativo. Faltou uma sondagem à saída do evento…

·       As pessoas da área da saúde são cerca de 6% do total, no qual os médicos representam pouco menos de metade, seguidos dos psicólogos, profissão muito marcada pelo desemprego, procurando assim, de modo ingénuo, na esquerda tradicional, a concretização dos seus anseios. Ou esfregam os olhos e organizam-se e lutam no seio da multidão ou esperam sentados pelas soluções saídas do pentapartido estagnado na AR;

·       Os desempregados, por seu turno, não parecem muito entusiasmados com o Congresso, detetando-se apenas 182, sendo de admitir que neste grupo haja diferenças claras entre a subscrição e a presença no conclave, uma vez que nem todos terão tido dinheiro para deslocações a Lisboa;

·        Os advogados (98) e os juristas (49) estão bem representados revelando a apetência de muitos para o mandarinato e o correspondente tráfico de influências, ambicionando, porventura, a bela vida de colegas deputados, de manhã na AR e à tarde nas empresas de advogados a elaborar leis encomendadas pelo governo;

·        Os economistas são 119, certamente, fiéis defensores do intervencionismo estatal, da nacionalização, do keynesianismo, provavelmente proponentes de um retorno a um “modelo social europeu”, como se o neoliberalismo, sendo naturalmente temporário, possa ser reencaminhado para as estruturas políticas, económicas e sociais do princípio dos anos setenta do século passado. Estão, neste grupo os propagandistas da reestruturação da dívida como Castro Caldas ou paladinos do disparate como José Reis[4], antigo secretário de estado de Guterres;

·       As gentes das artes e do espetáculo (166), também em contexto complicado de subsistência gerado pelas políticas governamentais, estiveram também muito presentes neste evento da esquerda institucional, à procura de apoios para a defesa dos seus direitos. O mesmo sucede com os trabalhadores da função pública (139) que, tomados por madraços inchados de mordomias, esperariam que os chefes do alterne lhes apresentassem uma alternativa à miséria, à inanição e à sanha genocida protagonizada pelo governo do indigente mental Passos;

·       Os numerosos militares reformados (76), revelam uma coexistência curiosa entre os repressores e os reprimidos de 25 de novembro de 1975. Não sabemos se tal harmonia resulta do espírito corporativo típico dos militares ou do beatífico espírito unitário incutido pelos chefes e gurus do Alterne;
 ·       Sindicalistas e outros mandarins somam 109 almas, predominando entre os últimos, deputados da esquerda do regime mas, também alguns da ala menos à direita do partido-estado, brilhantemente conduzida pelo Seguro, habilidoso equilibrista que contesta o programa do governo, aceitando o memorando e a incontinente interferência da Troika que … construiu o programa do governo. Confuso mas, real. Note-se que uns quantos mandarins, apresentaram-se com o chapéu das suas qualificações profissionais, deixando o cartão do partido em casa, para se mascararem de “bases”, num ensaio para o Halloween;

·       Conhecendo-se a impenitente defesa do obreirismo na constelação trotsko-estalinista patrocinadora do Congresso, é espantosa a baixíssima presença de operários ou profissões reveladoras da presença do proletariado industrial… se descontarmos uns quantos entre os esforçados sindicalistas. Aliás, quando alguém afirma como principal profissão “sindicalista” revela o seu caráter de burocrata, de funcionário, provavelmente isento do que é trabalhar sob o autoritarismo patronal, o risco de despedimento e perda de salário. Para utilizarmos a linguagem típica do PC – aliás, marginalmente presente no convénio – predomina entre os subscritores a pequena burguesia dos serviços e o conjunto dos “intelectuais”, designação que o partido ainda utiliza para referir os licenciados, reportando-se a um tempo, décadas atrás, em que a posse de um “canudo” era uma excepção num país de iletrados e, longe da precariedade e do desemprego que os assola, também, nos dias de hoje. Essa postura provinciana faz equiparar licenciado a intelectual… pelo que Relvas será um intelectual e Saramago um trabalhador braçal pois utilizava a caneta como instrumento de trabalho;

·       Nada mais contrastante com a ausência da “classe operária” que a forte representação de empresários (67) e gestores, administradores ou gerentes de empresas (80); imaginamos a alegria dos patrocinadores com a presença de patrões, provavelmente daqueles que preferem jantar um prato de sopa a proceder a despedimentos. Este elemento dos subscritores do Congresso explica o constante namoro ao PS e a tranquilidade de muitos patrões face a esta “extrema-esquerda”, na designação da direita lusa.

Como é habitual, o PC não mostra na sua página a notícia do Congresso; não sendo sua iniciativa, nem parte da sua estratégia, foi um não-acontecimento que os seus devotos não precisam de saber, por decisão do CC. Para mais, o convénio continha bastantes ex-pc ou elementos menos ortodoxos como o Carvalho da Silva, gente que  ainda não foi para o PS… mas que está na fila.
 
Em paralelo com este convénio e os costumeiros desfiles do Arménio, foi desenterrado um tal Movimento dos Trabalhadores Desempregados (MTD)[5], nascido por obra e graça de S. Jerónimo Magno em 2009, então com direito a faixa em manifestação da CGTP e a ter uma… direção nacional! Claro que ninguém sabe quem são os membros da direção nacional, das direções regionais, nem onde foram eleitos. Depois de três notas no blog naquele ano, o tal MTD passou 2010 em hibernação e em 2011 teve uma breve ressurreição, para recolocar uma foto de …2009. Em setembro último o MTD acordou para capear a marcha contra o desemprego terminada no dia 13 de outubro e, provavelmente, irá ser utilizado pelo PC para concorrer com o MSE – Movimento dos Sem Emprego, de génese trotskista. O PC/CGTP não pode correr riscos de ver alguém ocupar uma área muito sensível à radicalização nestes tempos conturbados de desemprego a crescer em flecha; o controlo social e a segurança no emprego dos burocratas sindicais assim o exige.
 
1.3 – A Declaração do Alterne

O que se viu no Congresso do Alterne foi que a única alternativa realista existente – mudança de paradigma económico e de organização política – é omissa;  e que a alternativa expressa – o pacto social – está morta, perante a pressão do capital financeiro internacional e a construção de um estado de exceção em que tudo é sacrificado para a satisfação do programa da Troika, algo que ainda irá durar bem mais do que os próximos cinco anos, caso se não verifique um levantamento popular que liquide o regime político cleptocrático.

Vejamos a matéria de alguns pontos da “Declaração do Congresso Democrático das Alternativas” - Resgatar Portugal para um Futuro Decente[6]:

·       No ponto 1.2 são omitidos os responsáveis pela assinatura do Memorando – a ala PS do partido-estado, PSD/PS; apenas se refere que o governo (o actual) foi capturado ideologicamente! Ilibando o PS, tenta-se branquear junto do povo as responsabilidades daquele partido na situação atual, como que dando uma indicação de voto no PS, como versão mais meiga ou menos amarga que o PSD; fica assim branqueado o comportamento da mafia socratóide desde 2005;
 
·       Por outro lado, ignora-se que o próximo governo será, provavelmente, de bloco central. Procedendo dessa maneira, ignorando essa realidade, os alternantes oram aos deuses para que o PS vire à esquerda, aceite uma “unidade nacional”, coopte alguns dos ilustres conferencistas para o governo - e outros como assessores -  para lhe dar um cheiro de “esquerda” e sossegar pessoas que se pretenderão agarrar a algo que lhes possa servir de esperança. Esperar um PS de esquerda é aguardar que um texugo cheire a rosas e, desse modo, a esquerda institucional oculta uma evidência; a de que apenas serve para o controlo social, para o qual está melhor colocada que a direita, emanação direta do capital;
 
·       Finalmente, afirmar que o governo foi capturado ideologicamente é idiota pois a sua própria matriz é a do neoliberalismo mais radical. Ninguém é capturado pelo que gosta e aprova;

·       O caráter de “esquerda” deste Congresso pode ver-se, caricaturalmente, pela presença da palavra capitalismo ou capitalista em três dos seus textos temáticos construídos pela brilhante equipa organizadora do concílio. Há apenas uma menção “As democracias liberais edificadas como arquitetura política do capitalismo…”, que, embora seja uma afirmação trivial, deve ter escapado aos censores. Nas 18 páginas da Declaração do Congresso, não há qualquer referência ao sistema económico que, aparentemente não tem nome ou é considerado como o fim da História, como defendido por Fukuyama[7]. E, portanto, o capitalismo está isento de responsabilidades, é apenas um reles detalhe técnico;

·       No mesmo ponto 1.2, o memorando é considerado “infeliz” como se resultasse de um descuido, de algo menos pensado pela Troika e pelos seus subscritores; como se fosse um golo na própria baliza. Esta observação, exemplar, prende-se com o projeto da esquerda institucional que, desistindo de analisar as caraterísticas do capitalismo de hoje, se reduz a avaliações quantitativas e de competência técnica. Estupidamente, repete por aí a incapacidade técnica de Gaspar, dos seus homens e da própria Troika, que “não querem ver” os impactos negativos da aplicação do memorando sobre a grande maioria dos portugueses, que revelam “insensibilidade social”, etc.[8] Eles até devem estar cheios de boas intenções mas, coitados, não percebem o mal que provocam e Lagarde até acha que os portugueses estão fatigados com a austeridade… Deus guarde os pobres de espírito pois será deles o reino dos céus!

·       Quando a realidade política é observada do ângulo das competências técnicas, da moral dos agentes políticos ou económicos, estamos no âmbito da metafísica ou da mais grosseira aldrabice. Se não acreditamos que Gaspar seja idiota também não admitimos que no leque de crânios que produzem o pensamento político da esquerda institucional prepondere a imbecilidade. Trata-se, sem dúvida de um cálculo político que evita denunciar as caraterísticas do capitalismo de hoje, do domínio do capital financeiro, pactuando, de facto, com este último, sob a capa de divergências processuais ou de estilo. É uma forma encapotada de evolução na continuidade, do conservadorismo que permite as chefias partidárias e os seus deputados terem uma vida sem sobressaltos. E por isso, acentuam como solução da crise e do fim da austeridade, a importância da queda do governo, de eleições, reivindicação sempre presente desde 1976, com muito parcos resultados. O problema é o sistema, não é só o governo;

·       A Troika e Gaspar sabem muito bem que as medidas que vão sendo tomadas encaminham rendimento para o capital financeiro global, que permitem a recuperação dos bancos portugueses, que favorecem as empresas de regime, que promovem um rebaixamento dos salários, das condições laborais e dos direitos sociais. A ideia é a de uma brutal redistribuição regressiva de rendimentos que promovam um espaço de baixos salários e que torne Portugal … competitivo face à Ásia e ao cone meridional da América do Sul; o fomento da emigração e as políticas genocidas dirigidas a cerca de metade da população visam um recuo populacional, necessário para um país mais… competitivo. Tudo, aspetos que a esquerda do sistema oculta, para que o tempo vá passando e a multidão continue entretida com discursos parlamentares, telenovelas e futebol;

·       No ponto 1.3 , aponta-se que a alternativa deve “basear-se num compromisso comum das forças políticas e sociais que dão valor ao desenvolvimento e à inclusão social, afirmam a dignidade do trabalho, estimam o papel da esfera pública e defendem uma democracia robusta”. Um saco cheio de gongorismos com vestes keynesianas;

·       Em 2.1 fala-se na renegociação da dívida após denúncia e, aparentemente, os congressistas deixaram cair a auditoria, há um ano tomada peça central para apresentar à Troika, bem como as contas feitas pelos mosqueteiros da IAC, certamente com argumentos tão esmagadores que o Selassie ficaria mesmo sem saber o que seria. A inevitável reestruturação da dívida pressupõe um ambiente de renegociação para salvar a face do governo perante a população, fazendo-lhe crer à plebe que os mandarins servem para alguma coisa e, que lutaram como leões contra a malvada Troika. Como a “determinação firme de Portugal” não passará pela ruptura – em caso algum os alternantes terão uma postura unilateral de suspensão dos pagamentos do serviço de dívida - a Troika tem a tarefa facilitada, uma vez que em vez de firmeza, encontrará a frouxidão no lado do partido-estado, PSD/PS, com ou sem o CDS pela trela;

·       Em 2.2 diz-se que “A abertura de negociações com as instâncias internacionais sobre o Memorando é a principal e mais urgente tarefa de um governo democrático”. A reivindicação é foguetório, uma vez que a reestruturação é inevitável, é uma certeza, estando prevista desde há muito tempo a renegociação para troca de empréstimos de curto prazo por outros, de longo prazo e taxas de juro mais baixas. O insuspeito jornal inglês “The Economist”[9], espelho dos interesses do capital financeiro, afirmava recentemente que “o ‘timing e a dimensão de uma reestruturação da dívida são difíceis de prever, mas que tal poderá acontecer no final de 2013” quando o Gaspar previa o retorno ao “mercado”. Na política institucional apontar para um facto futuro certo é a preparação para, no momento da sua efetivação, os mandarins apontarem ao povo as suas competências. Em tempo de seca, não é preciso ser meteorologista para se afirmar que acabará por chover;

·       A renegociação será levada a cabo com a presença do PSD/CDS ou do PSD/PS, se houver reformulação governamental na primavera. Sucede que a Declaração do Congresso afirma ser a abertura de negociações a mais urgente tarefa de um governo democrático. Assim sendo, será um governo de direita a protagonizar essa negociação e, assim, esse governo será implicitamente democrático porque… cumpre as reivindicações do pessoal do Alterne, ficando assim, os partidos de direita com a cara lavada. Como é notório, nem o PC, nem o BE serão chamados a dar uma caução democrática a esse próximo governo.

·       Por outro lado e apesar da fragilidade do governo atual, o PS não está interessado em eleições, em vir a assumir a gestão da crise e da aplicação das receitas da Troika; Seguro foi programado para aguentar o partido na oposição e nunca para primeiro-ministro. Qualquer sinal de que o PS poderá estar interessado (ou obrigado) em tomar conta do pote partirá da substituição de Seguro, tal como sucedeu com a invenção de Sócrates em 2005. A posição do PS é ir falando grosso para eleitorado ver mas, afastar-se do “radicalismo” do coro do PC/BE que clamam por umas eleições que lhe não interessam. A queda do governo dependerá essencialmente de Portas e, mesmo assim, não seria estranho que Merkel impusesse um governo das duas alas do partido-estado, sem mascarada eleitoral, a partir do manuseamento de Cavaco; seria institucionalmente menos grosseiro do que a nomeação de Papademos e Monti, em 2011, respetivamente na Grécia e na Itália;

·       No ponto 2.3, em linha com o que diz o governo e toda a direita, a reestruturação da dívida não poderá colocar em causa o financiamento externo que tem vindo a ocorrer, no âmbito do Memorando, ficando assim claro que no contexto do leque ideológico contido no Congresso, não haverá qualquer ruptura com a Troika. Recorde-se que a saída do euro (e da UE) é uma hipótese defendida apenas pelo PC - não publicamente – e que tem toda a lógica no quadro da sua deriva nacionalista; porém, essa posição é meramente tática, para fixação do seu conservador eleitorado, para marcar uma diferenciação agregadora, face à concorrência. O disparate é tal que não se atrevem a colocá-lo na praça pública, como o fazem os irmãos do KKE e dos pândegos vizinhos do PCPE;

·       Para as gentes presentes no Congresso, em grande parte sócios ou simpatizantes do BE, refere-se que “Portugal deve preparar-se para uma resposta da Troika que passa pela suspensão do financiamento acordado até 2013” num cenário europeu desfavorável e em 2.4 admite-se que “a resposta ao corte do financiamento fosse a declaração de uma moratória ao serviço da dívida”. Esta posição, reativa e afastada de uma iniciativa própria é semelhante à apontada pelo Syriza na Grécia, antes das eleições de junho; porém, o Syriza estava inserido numa estratégia eleitoral, num contexto em que a coligação grega tinha, então, sérias possibilidades de chegar ao poder e, esse simples facto atribuía-lhe uma credibilidade para a captação de eleitorado social-democrata que a esquerda institucional portuguesa está longe de ter;

·       Em caso algum os chefes do Congresso admitem uma iniciativa de moratória, com suspensão do pagamento do serviço de dívida[10], com a mobilização dos portugueses para o efeito, eventualmente concertados com a Grécia, a Espanha e a Itália, particularmente; apenas se admite a moratória, em reação, no seguimento de uma atitude de exclusão da parte da Troika;

·       Como se renuncia à iniciativa libertadora do torniquete definido pelo capital financeiro global e se aponta exclusivamente para a renegociação do memorando aceita-se, concomitantemente, a continuidade de um texto definidor não só da política económica e financeira como de toda a arquitetura dos direitos sociais e laborais, a efetuar de acordo com os interesses do capital financeiro e dos desígnios do empresariato luso, mormente as empresas de regime e dos meios exportadores. O naipe das “sensibilidades” mandarínicas que elaboraram a Declaração não se apercebe da contradição entre a aceitação de uma renegociação do memorando portador de limitações à soberania e o seu discurso patriótico. Arrotam diatribes patrióticas para fomentar e captar simpatias nacionalistas enganando os potenciais eleitores do BE ou do PC, com promessas vagas e vãs de aumento do emprego, de “defesa do Estado social”, “redução da dependência externa”, “reivindicação do direito ao desenvolvimento”, etc; ao mesmo tempo que defendem e se dispõem a aceitar a suserania externa da Troika, mesmo que aligeirada, numa renegociação do memorando. Em suma, acenam todo o arsenal ideológico de concertação social dentro de cada estado nacional, no quadro do capitalismo, temperado pelo reformismo keynesiano - surgido no pós-guerra na Europa Ocidental e já em decadência quando o regime fascista caiu em Portugal – para captar eleitorado;
 
·       No ponto 2.6 da Declaração afirma-se que a denúncia do Memorando significa o declínio e, convém sublinhar que aquela deveria ser apenas um princípio para evitar a brutal deriva empobrecedora e de regressão democrática em que estamos. O que se passa é que a atual re-hierarquização das regiões europeias, passa pelo aumento das desigualdades internas dentro da UE, com perdas evidentes para as periferias a sul. Esse modelo anula qualquer lógica de solidariedade federal entre as diversas regiões, o que aliás nunca se evidenciou em toda a história da integração europeia, apesar de toda uma propaganda de décadas. Sabe-se que os fundos estruturais visaram sobretudo, facilitar o comércio intracomunitário e uma determinada divisão interna do trabalho[11]; e, numa fase mais recente, acentuou-se a utilização da dívida como instrumento de transferências de capital, da periferia para o centro da UE, num género de retorno dos fundos comunitários enviados para Sul durante duas décadas. Esse modelo, porém, tem adjacente um projeto concentracionário de poderes políticos e económicos, com a sua acrescida transferência para um conjunto de órgãos burocráticos diretamente emanados do capital financeiro, no desenvolvimento da apropriação dos estados por aquele, como vimos referindo, em textos anteriores. Em termos da estrutura produtiva, pretende-se a constituição na Europa do sul e a leste - e mesmo na bacia mediterrânica - de uma área de concorrência com a Ásia, dentro de alguns anos, não sendo certamente por acaso toda a concentração do dispositivo militar-estratégico da NATO no Mediterrâneo. Com as tecnologias atuais, com o primado da mercantilização, é evidente que se prepara um grande declínio populacional, a médio prazo, a partir das medidas de redução de rendimentos e direitos que se vão estabelecendo no sul da Europa;

·       A saída não é fácil. Uma saída nacionalista por expulsão do euro e/ou da UE, ou ainda através de um desmembramento da UE, está longe de promover o bem-estar dos povos e uma maior democracia; esta, hoje, já meramente caricatural. Somente uma saída internacionalista, de unidade solidária e articulada entre os povos e, mormente dos trabalhadores, com a destruição do poder financeiro, das multinacionais e do capital mafioso é uma saída de futuro. Essa construção envolve a instituição da autogestão nas empresas, reformuladas como unidades técnicas e não de poder capitalista; a gestão do comum com decisão democrática, na base, tendo como fito a satisfação das necessidades coletivas, sem Estado ou classe política. Só essa laboriosa construção conduz à saída do pesadelo atual ou ao seu periódico renovar.

·       Como dizem os caciques que escreveram a Declaração do Congresso, quem decide é o povo soberano mas, no seu entender, toda a arquitetura da organização política e da representação é insuperável uma vez que a Constituição é um elemento sempre perfeito, intocável, mesmo que as suas revisões tenham sempre conduzido a perdas de direitos. Na lógica da conservadora esquerda do sistema, o que existe é para manter, porque a evolução, o progresso, os assusta e faz temer que as coisas só poderão piorar; preferem manter o sistema que lhes dá subsídios estatais e garante postos burocráticos do que arriscar em alterações profundas no ordenamento político e económico. Por isso, não pode apontar os governos como bandos de vulgares malfeitores, práticos de gestão danosa ou corrupta, de comportamento anti-social e genocida, de obediência servil à finança global como aos ditames do Ricardo Salgado, do Borges ou do Saraiva. O sistema económico e os modelos de organização política e de representação não têm qualquer legitimidade, mesmo que beneficiem da moleza despolitizada da plebe lusa e da conivência aveludada da confraria da toga; 

·       Por estar bem instalada e dependente do Estado, a esquerda institucional não pode defender ou promover uma subversão do atual estado de coisas, com a reformulação radical do ordenamento constitucional. Assim, a sua responsabilidade em que 87% da população esteja desiludida com a democracia[12] é imensa, não os vai beneficiar particularmente e, seguramente, não favorecerá o necessário aprofundamento democrático, com o prejuízo evidente para a multidão em processo galopante de empobrecimento e perda de direitos;

·       Daí, como diz o José Mário Branco, “consolida, filho, consolida”. Consolidam os lugares e as mordomias na AR, os discursos redondos e empolados, numa linguagem repleta de floreados que ninguém usa, sobretudo quando se lembram de ser criativos; consolidam os postos nos sindicatos, com a ajuda de estatutos que bloqueiam a democracia e qualquer alternativa; consolidam as mesmas práticas de manifestações rituais em fevereiro, maio e novembro, com a luta que continua e o governo que vai para a rua, como todos, aliás; e aproveitam a consolidada relação com a polícia sempre que alguns insubmissos não conhecem o verbo consolidar. Importante, sempre, é que haja sucessões de governo para que o regime se consolide. Alguma coisa tem de mudar para que nada de substantivo se altere. E por isso, pensamos lançar uma petição para que Cavaco, fóssil bem consolidado, se não esqueça (ai o Alzheimer!) de atribuir medalha ao Carvalho da Silva pelos seus 25 anos a consolidar o controlo social, cujas canseiras ainda lhe deixaram fôlego para inventar pífias auditorias cidadãs e magnos concílios do alterne;

22 de outubro de 2012

A despolitização, o controlo social e as alternativas


1 - A despolitização e o controlo social
2 - Elementos básicos para a construção de alternativa

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1 - A despolitização e o controlo social

Os tempos estão difíceis.

Estão difíceis para a multidão, pelas questões que sabemos – desemprego, cortes nos rendimentos e nos direitos, falsa democracia, ausência de futuro… Pretendemos capear, em seguida, essas dificuldades, por uma razão que se situa a montante, uma razão que, verdadeiramente, introduz dificuldades na compreensão do momento que se vive e, no desenvolvimento de uma contestação organizada e genuína, de refundação democrática da solidariedade e da equidade. A despolitização.
A despolitização das últimas décadas, programada pelo poder, está contemplada na Constituição, ao remeter para os partidos – com legalidade e subsistência financeira assegurada pelo Estado – todo o protagonismo na ação política. E é errado acusar exclusivamente a classe política saída do PREC, por isso. À medida que o tempo foi passando, o povo foi engolindo as várias colheres de xarope de histamínicos para se manter sonolento, sem os efeitos da alergia que convenientemente deveria ter sentido, desde que o regime fascista caiu, face aos gangs mafiosos que têm constituído o grosso da chamada classe política.

Numa primeira fase, o povo foi engolindo a necessidade da “consolidação democrática” excelentemente retratada por José Mário Branco no seu “FMI” (consolida, filho, consolida!) quando, de facto, o que se consolidava era o poder do capital e a corrupção, sua inerência, em termos monetários e de valores;

Depois, seguiram-se as colheres da “maioria de esquerda” em que o PC mascarava o seu confortável conformismo com a eterna espera de que o PS desenterrasse o seu parco esquerdismo do passado; e assim, o povo esperava, adiava as mudanças, talvez para as próximas eleições, cada vez menos participadas;

Entretanto, advieram duas doses de “FMI”, mistura de purga e diurético que provocaram forte desarranjo na vida dos trabalhadores, em 1977/79 e 1983/85; mas, os portugueses são um povo de fé e continuaram a encontrar a alegria de viver no consultório do médico de família, o PS/PSD;

O xarope seguinte veio do exterior e tinha na embalagem o rótulo “CEE”. De acordo com a bula inclusa, curava a tosse mais impertinente, a bulimia, a falta de estradas, de dinheiro, de amigos, de prestígio… E não teria contra-indicações para grávidas, cardíacos, epiléticos ou diabéticos;

A felicidade era tanta quanto a dos jovens caloiros fardados de negro depois de beberem 20 ginginhas no Rossio. Foram sorvidas doses industriais de fundos comunitários e crédito, à medida que se passeava nas novas autoestradas vendo a indústria definhar e a pujança de uma bem visível nova indústria, a do imobiliário, ouvindo o mavioso som das betoneiras;

Entretanto, veio a receita do euro, sem redução do fluxo de dívida nem da saída de capitais para o exterior. Está tudo bem, assegurava-se no consultório do PS/PSD; as dores nas costas é do tempo, as digestões curam-se com dieta, a prisão de vente com um laxantezito, as impinges com uma pomadita, a queda do cabelo com um elixir, as mamas descaídas com uma cirurgia plástica, a disfunção eréctil com uns comprimidos azuis… mesmo para os benfiquistas mais ferrenhos;

A alegria feneceu, não com a gripe aviária ou a gripe A, mas com quatro frascos de PEC e uma consulta ao especialista Troika, depois de uns açoites dados pela mamã Merkel, a Sócrates e Passos. Tudo acabará em bem, para si e sua excelentíssima família, aconselhou o médico de família, PS/PSD, na presença do estagiário Portas, após um esforço coletivo e algumas, poucas mas, notórias excepções.

O consumismo, adocicado com doses de xarope, ou as doses de xarope acompanhadas de consumo real ou projetado afetaram a capacidade de pensar e causaram efeitos colaterais na visão, contribuindo, em conjunto, para uma feliz despolitização, conveniente para a impune montagem de um estado de cleptocracia avançado.

Assim e apesar do seu arrastar de modo larvar, a crise, ao explodir em 2008 com ondas de choque crescentes com a passagem do tempo-espaço (ao contrário das bombas), encontrou uma população desprevenida e desprovida do hábito e da capacidade para uma abordagem mais profunda das causas, dos efeitos e das soluções.

Em 2011 foi ensaiado um xarope placebo chamado eleições, que substituiu a diarreia pela disenteria; e entretanto, os laboratórios da margem esquerda do parque industrial do controlo social mostram-se muito ativos na promoção do mesmo produto, na esperança de melhorarem as suas comissões de venda e assim garantirem ou, mesmo criarem, novos postos de trabalho, com rebuçados do dr. Keynes.

Na realidade, a plebe hesita ou mostra-se mesmo consciente de que o médico de família PS/PSD está velho, gordo, reumático e gangrenado, só resistindo porque ligado à máquina da repressão e ao apoio comunitário; no entanto, há quem dê ouvidos à gritaria dos delegados de propaganda dos laboratórios da margem esquerda, reles vendedores de banha da cobra, ainda que com qualidade atestada pela ASAE.

A ilusão resultante da despolitização provocará o comodismo da toma do fármaco eleições; ou, será a preguiça mental que constrói a ilusão de que tudo passará, através do funcionamento do mercado de bens e de serviços, incluindo nestes, os eleitorais?

Pouco importa se aquilo a que se assiste é a um arrastar dolente – apesar das marchas e procissões, dos gritos, das faixas inflamadas e dos sentidos epítetos dirigidos à mãe de Passos - sem ser sentida ou assumida a necessidade da morosa e difícil construção de alternativa, para além e contra o sistema de ditadura do mercado e das suas instituições. Nesse entretanto e para o efeito, afadigam-se no seio do movimento social, os novos e velhos sofistas, candidatos a mandarim, no sentido de reconstruir o controlo social e tornarem-se os seus gestores.

Os quadros partidários têm, em geral, baixa cultura política, mesmo quando possuidores de elevadas habilitações académicas; para confraternizar com uma plebe ignara e mansa, vai chegando. Em contrapartida, sentem-se confortados por se inserirem numa cadeia hierárquica, detentora da “linha justa” e sobra-lhes um forte espírito de pertença à seita, semelhante ao das claques do futebol, mais baseado na emoção, no espírito de grupo, do que na endogeneização de uma capacidade argumentativa.

Perante os neófitos ou potenciais recrutáveis, aquelas são as caraterísticas que mais usam, acenando com o conforto de se estar num grupo alargado, quando o contexto social, sabemos todos, é gerador de isolamento e individualização. A tática para o recrutamento não é diversa da utilizada pela IURD ou pelas Testemunhas de Jeová junto de suburbanos desenraizados.

Nesse contexto, reagem, sempre ríspidos, às críticas vindas de meios anarquistas ou alternativos ou, encolhem as orelhas, não respondendo às mesmas, para evitar discussões onde se possa evidenciar mais a pobreza política do partido junto das “massas”; e logo se sentem tocados quando alguém critica o seu clube, tomando a crítica como algo próximo do ataque ou ofensa pessoal. Parece que, como pessoas, se anulam em função da sua claque, como as formigas face ao formigueiro. A não reivindicação de carta de alforria pouco acontece porque no fim da sua estrada está um cargo de mandarim e mordomias estatais.

2 de julho de 2012

Lembras-te de Mohammed Bouazizi?

(como recuperar a memória do confronto)

escrito por "Vadio"

Eu sei que te recordas, facilmente te recordarás: era aquele jovem que vendia fruta e legumes em Sidi Bouzid. Imolou-se, e veio a morrer dias depois em consequência da imolação.

Bouazizi tinha um diploma como tu; desemerdava-se com o seu carrinho ambulante, tal como tu te orientas com as tuas merdas, para contornar o abandono a que te sentes votado pela sociedade, pelo Estado, pelo mundo que te rodeia. Bouazizi já não tinha sequer a solução da emigração, porque a nossa querida Europa deixou de precisar “deles”, sabes como é: abriu-lhes as portas quando dava jeito para enriquecer mais um pouco e depois atira-os ao mar, bye bye, hasta la vista.

Não queria começar a falar num tom mais sério, porque estamos todos tão fartos que já nos fartamos de tudo. Estamos fartos de ler o jornal, fartos de receber emails, fartos da mesma conversa na rua... Não queria que me compreendesses mal. Se escrevo, não é para fazer-te mal, mesmo se por vezes pareço estar contra ti por causa das interrogações que me parecem necessárias para atravessar o deserto de olhos abertos. Pensar em determinados ângulos de visão só nos fará bem. Mas não os tomes como pontos fixos. Nem de fuga à realidade, aquela que nos espera fora dos plasmas, das redes sociais, dos textos de circunstância.

...então, se estás embebid@ neste interminável programa organizado de intoxicação dos teus neurónios e se apanhas, a toda a hora, socos no estômago, diz-me, será que podes ouvir o que tenho para dizer? Será que o teu mal-estar pode ser provocado por um simples texto? Será que é a mim e a outr@s, cada qual à sua maneira, que te dão um treino menos digestivo ao estômago, que deves rechaçar de uma assentada e, na maioria das vezes, por reacção emocional, as perguntas que te damos? Não te iludas, não são as “perguntas” que te encostam contra a parede. As “perguntas” apenas te impedem de não ver o que teimas não querer ver: que a parede já lá estava e continua a ser construída; que tu, e eu, e tantos outr@s, estamos cercados, por todos os lados.

Dá-me o benefício da dúvida: não te apresses a compreender-me, às minhas palavras, se gastas tanta da tua compreensão, no dia-a-dia, para encaixares o mal-estar que te provoca este tempo de impostura política, de opressão social, de barbárie humana e ecológica. Repara: o patrão exige-te a qualquer momento que lhe obedeças e que o ouças, dita-te tudo tim tim por tim tim, ou tem alguém que faz isso por ele, e tu comes e calas; o governo sussurra-te todos os dias aos ouvidos, naquele ar contido e esgazeado dos tecnocratas, uma melopeia cínica, pedindo-te encarecidamente que acredites na mentira, que engulas a austeridade como inevitável e para todos, e que as medidas governamentais, determinadas pelo círculo dos máximos responsáveis pela conjuntura social actual, são para o bem comum, em suma, o governo manda-te rever por baixo a tua condição de explorado, oprimido, humilhado, e pede-te estabilidade, sacrifício, contenção, ordem; a TV entra-te pelos olhos dentro e desvia para canto a realidade, desvia-te da tua realidade, uma espécie de narcótico, cujo contrabando está nas mãos de um cartel de elite, hábil na fabricação da realidade, exímios ficcionistas sociais; os bancos esmifram-te o que tens e o que não tens...

Porquê isentarmo-nos da realidade? A realidade não é uma conclusão? A destruição do bem-estar da tua vida por uma ordem económica e autoritária não é uma conclusão? A morte brutal de milhares de iraquianos não é uma conclusão? A eliminação do sistema público de saúde não é uma conclusão? A perda contínua de direitos laborais não é uma conclusão? O alargamento do fosso entre ricos e pobres não é uma conclusão? (Conclusão essa num contexto de crescimento económico...!) A hipocrisia dos discursos dos governantes não é uma conclusão? O poder discricionário das agências de rating não é uma conclusão? A desastrosa cultura anti-ecológica dominante não é uma conclusão? Guantánamo não é uma conclusão? Polícia à paisana a bater e prender manifestantes numa rua de Lisboa, não é uma conclusão? Alguns também me chamarão de trágico, quiçá de vate.

Sei que te apressas também a pedir-me brandura, que escreva o que tenho a dizer como se tratasse de uma tese e dedicasse o último parágrafo à síntese, às conclusões. Em suma, que ordenasse os factos e os acontecimentos sem os interrogar ou pôr em causa. Por outras palavras, aceitando-os, isentando-me de interrogar a realidade, esse pobre papel levado tão a peito pelos jornalistas*.

O Vale do Ave e o Grande Porto são tradicionalmente as regiões do país com as taxas de sucídio mais baixas. No Ave, ainda entre 1996/99, suicidava-se uma pessoa por 100 mil habitantes, bem longe da realidade do Alentejo, onde em alguns concelhos mais de 30 pessoas por 100 mil habitantes cometem anualmente suicídio. Sabe-se também pelos dados existentes que são sobretudo os homens que se suicidam. E a diferença, em relação às mulheres, é significativa.

Nos últimos anos, na região do Ave, a realidade parece ter mudado abruptamente. Em 2010, um alto responsável de saúde falava em mais de 30 suicídios nesta região. O director do Departamento de Psiquiatria e Saúde Mental do Centro Hospitalar do Alto Ave afirmava que “num ano fizemos 15 mil consultas, 200 internamentos e temos seis mil pessoas em atendimento continuado”, por motivos de saúde mental. Outra técnica do mesmo serviço hospitalar, referindo-se ao problema do suicídio e apenas no Alto Ave, explicava “que num só ano de avaliação destes casos foram 162 as tentativas de suicídio na região do Alto Ave, 128 das quais perpetradas por mulheres e 34 por homens”.

Que circunstâncias podem explicar esta alteração súbita e, principalmente, que razões podem explicar esta disparidade relativa entre as tentativas de suicídio das mulheres, que agora se sobrepõem exponencialmente às perpetradas pelos homens?

Será da depressão acentuada do Vale? Condições orográficas específicas? Masoquismo genético por consanguinidade geográfica? Valerá a pena fazer as contas? Determinar a percentagem de crescimento do suicídio feminino? Estabelecer o índice de suicídio X, ípsilones acima da média habitual para a região? Porque se apaga este desesperante mal-estar social? Por que razão até hoje nenhum suicídio do Vale do Ave foi visto como um acto de desespero político? Acharás também que o facto de a prostituição feminina ter aumentado visivelmente no Ave é uma questão de gosto pessoal? Economia alternativa? Ali abundam factos que estabelecem a ligação da lógica de poder capitalista ao patriarcado. Observa-se como os fins lucrativos do mercantilismo, ao assentarem numa visão patriarcal, ganham rentabilidade ao fazerem perdurar uma discriminação sobre a mulher, que sofre uma “dupla” opressão conjugada.

A prostituição e o sucídio são gestos extremos. Gestos carregados até à boca com o silêncio. Ou, mais precisamente, carregados pela atmosfera de silenciamento. Gestos coagidos a reprimirem o próprio grito. E esses gritos reprimidos, se audíveis fossem, atingir-nos-iam. Como nos atingiu a imolação de Mohammed Bouazizi. E se ninguém havia reparado nisso é porque as estruturas sociais que determinam o que é e não é político lavam a humilhação a que homens e mulheres anónimos estão submetidos e sublimam o sofrimento humano através do prozac; do gabinete do psicólogo, que encerra a humilhação económica e espiritual em causas individuais; através dos padrões de sucesso e insucesso moldados pelo omnipresente central-shopping, essa amável atmosfera de luxo e falsa abundância; através do culto ao artigo-consumidor, do Ferrari do patrão à publicidade, esse programa contínuo das televisões; através da impostura dos Centros de Emprego, pressionando os desempregados (já em si fragilizados pelas condições de violência económica que enfrentam) a aceitarem a integração na máquina exploratória, ou promovendo acções de formação compulsivas, que qualificam para melhor produzir, ou seja, para tornar mais eficiente a exploração, sem qualquer intuito de fortalecer os recursos dos trabalhadores para melhorarem a sua condição laboral; enfim, apaga-se a condição do suicidado pela sociedade através da destruição dos laços comunitários e, nessas latitudes nortenhas, ainda com a excomunhão da alma-penada católica. Esse apagamento planeado das razões políticas e sociais do mal-estar humano, enfraquece-nos e destrói o sentimento de pertença a um colectivo, tudo aquilo que, a pouco e pouco, serviu e serve a renovada estratégia do neoliberalismo, o braço cultural do capitalismo: fazer crer que cada um de nós é um corpo-autómato que vive separado da realidade dos outros... tudo aquilo que engendra as condições óptimas de inércia e isolamento, a ponto de a cultura dominante ter feito de cada um de nós uma espécie de técnico de assistência à eutanásia colectiva.

19 de junho de 2012

A Grécia, o Syriza e a esquerda menor portuguesa



Lições das eleições gregas de 17 de junho

É evidente que o resultado das eleições gregas nada irá resolver dos problemas do povo. Tudo indica que vai sair das eleições um governo frágil, saído precisamente das hostes dos responsáveis das desgraças que vêm recaindo sobre os gregos; das hostes da Nova Democracia e do Pasok, com um ou outro apêndice; na Grécia haverá uma versão helénica do PS/PSD, eventualmente de vida curta.

A análise dos resultados revela:

  • Houve uma nefasta sensibilidade de parte substantiva do povo grego face à campanha indutora do medo, da ameaça de maiores desgraças, do aceno de uma hecatombe, com saída da UE e do euro. Esse medo promoveu uma concentração dos votos na Nova Democracia, com a continuidade da penalização do Pasok;

  • Essa campanha foi claramente orquestrada pelo capital financeiro e pelos seus funcionários globais (FMI, BCE e Comissão Europeia), pelos seus executantes nacionais, com destaque para Merkel, pelos media e, ainda para os escalões mais baixos da criadagem europeia. Estes, felizes pelo seu sucesso no empobrecimento coletivo dos povos, pelo seu desempenho na repressão e redução de direitos são como os cães; ladram sempre mais alto que os donos. É de elementar justiça, quando se fala de criadagem ou de cães, referir o dileto rafeiro da Merkel, o Passecos;

  • Os gregos procuraram nestas eleições uma solução governativa, polarizando os seus votos em duas formações políticas, tomadas como as mais capazes ou, com maior probabilidade, de dirigir essa solução. O voto na Nova Democracia representa a procura da continuidade com receio de uma rotura com o memorando da troika. O voto no Syriza significa a aposta na rotura com receio do agravamento resultante da continuidade desse memorando;

  • A questão é que a realidade vai trazer um governo de direita, que  protagonizará a aplicação de um agravamento das condições de vida através da continuidade do memorando e da submissão aos interesses do “mercado”, do capital financeiro, ao ritmo marcado pelos tenores das agências de “rating” que se elevam sobre o ensurdecedor coro dos governos e burocratas europeus;

  • É de admitir, porém, que surjam novas manobras “salvadoras”, classificadas de definitivas, pela parte do capital financeiro e dos seus funcionários, passado (temporariamente?) o susto grego; como aliás foi revelado em primeira mão pela subida das cotações nas bolsas. Essas manobras tentarão modificar algo para que tudo continue na mesma; e, de facto, continua por se saber como anular valores astronómicos de dívida – pública e privada – gerados pela incúria do sistema financeiro e pelos seus governos nacionais, sem promover a destruição desse próprio sistema, arrastado por falências de bancos em cascata. Hollande parece ser a figura típica da mudança, na mais estrita continuidade sistémica. Note-se que atualmente não é a Grécia o principal problema do poder global mas, a Espanha; para o efeito, abriram-se vários mealheiros no conclave do G20, no México e o FMI recolheu € 361000 M para se precaver;

  • Como irão reagir os gregos? Quantos, nos próximos meses de austeridade imposta pela troika e executada pelo governo de direita, perderão o medo e se sentirão mais próximos de um ativo repúdio do memorando? Manter-se-á o equilíbrio entre a diversidade de sensibilidades de esquerda que constituem o Syriza? Manter-se-á o seu programa de rotura ou alastrarão alguns sinais de menos firmeza programática observados nos dias anteriores às eleições de dia 17? Para já, o Syriza tomou a única atitude coerente, depois de assumir a vitória eleitoral da Nova Democracia – não participará num governo de direita e assumirá a oposição;

  • Para além do Syriza, nas ruas, entre os diversos grupos autónomos que posições se irão assumir, após o periodo eleitoral? Contestação radical como reação ao governo de direita e à maioria parlamentar que o suportará? Atitudes radicais contra os fascistas e a impunidade dos seus crimes contra imigrantes? E será o Syriza capaz de manter o diálogo e uma concertação estratégica com a contestação de rua?

  • E no resto da Europa, mormente nos outros países colonizados pela troika ou, sob a mira dos “mercados”, surgirá algo de mais consistente e duradouro no campo da contestação de rua e política? A pluralidade de grupos e movimentos de massas, como por exemplo, os indignados, os mineiros asturianos, os manifestantes alemães, os anarquistas, os ecologistas, os desempregados… serão capazes de uma ação concertada, permanente e radical, que vá para além de manifestações simultâneas em vários locais (15 de maio ou 15 de outubro de 2011)? E como aprofundar ligações com os povos das margens sul e oriental do Mediterrâneo, a braços com o desencanto perante as descendências dos regimes de Mubarak, Ben Ali ou Kadhafi? [1]


Acordes de esquerda menor, portuguesa

Como dissemos em análise efetuada após as eleições gregas de maio [2], a esquerda institucional portuguesa é constituida por duas formações perfeitamente inseridas no “establishment” político e dependentes do financiamento público; portanto, mais dedicadas à manutenção do sistema político, económico e social, do que na constituição de uma alternativa a esse mesmo sistema, opressor, autoritário e corrupto.

Essa lusa esquerda institucional,

  • Apresenta-se com uma lógica produtivista, de crescimento económico, sem falarem seriamente de redistribuição da riqueza – a mais iníqua da Europa ocidental;

  • Nada apresenta de mobilizador para a alteração do sistema político e de representação, por mais anti-democrático e propiciador de corrupção que ele seja;

  • Quanto à dívida pública acena para uma renegociação da mesma com a “troika” e que não pode protagonizar, apresentando como entretenimento mediático uma auditoria cidadã que pouco vai além de um site de banalidades e transcrições;

  • Ignora o anti-militarismo como componente de qualquer formação progressista de hoje;

  • Recusa-se a encarar de frente a insuficiência de um movimento sindical sectário e ineficaz para o reforço da união de trabalhadores e ex-trabalhadores, desempregados e imigrantes;

  • Mantém a postura leninista da imprescindibilidade do Partido, como pai severo a que todos se devem submeter, arrogando-se ao direito de controlar todos os protestos e movimentos, se necessário em ligação com a polícia;

  • Resume-se a lançar a confusão junto da multidão, apresentando banais soluções de caráter keynesiano, como se se tratassem de medidas anti-capitalistas. Aliás, a palavra capitalismo é uma referência pouco comum nas arengas dos lideres da esquerda do sistema; o que é, aliás, perfeitamente coerente com as suas propostas em geral.