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4 de novembro de 2012

Os movimentos sociais e as vigarices sociais



Intróito
1 - O Congresso do Alterne
1.1 - Introdução
1.2 - Abordagem sociológica
1.3 – A Declaração do Alterne
2 – O grupinho “Que se lixe a Troika”

********************************

Intróito

No seguimento de “A despolitização, o controlo social e as alternativas”[1] vamos tratar de dois exemplos recentes de controlo social sob a forma de falsas alternativas ou, de alternativas internas ao sistema capitalista e de democracia de mercado. São elas, o recente Congresso Democrático das Alternativas a que abreviadamente, chamaremos Congresso do Alterne, incluindo aí referências à IAC – Iniciativa para uma Auditoria Cidadã, cuja longevidade, sem trabalho que se veja, aponta para um caso de burla política – por nós há ano e meio denunciada; e, a uma escala menor, o grupo “Que se lixe a Troika”. Todos se apresentam, implicitamente, como instrumentos do capital e da plutocracia, do mandarinato cleptocrático, como putativos candidatos a um lugar no sistema, através do imundo trabalho de gerar falsas alternativas junto de pessoas, mormente jovens e, reconduzirem os protestos e a vontade de mudança para o seu redil de exploração e iniquidade, enquadrados pelos seus cajados de pastores ideológicos.

1 - O Congresso do Alterne
1.1 - Introdução

Como é evidente, não nos dignámos a pisar as alcatifas da Reitoria para assistir a um evento promocional, de propaganda eleitoral. Não tomamos anti-histamínicos porque suportamos bem os ácaros; mas, somos muito reativos ao bolor político ou à vigarice intelectual.

Pelos relatos que nos deram do auspicioso evento de dia 5 de outubro, infelizmente ensombrado pela pitoresca estória da bandeira pátria colocada às avessas e que desviou a atenção dos telejornais, a coisa acabou bem, numa beatífica unidade; e, para compensar os funestos acontecimentos da manhã com o Cavaco a içar o estandarte (a melhor figura para o efeito dado o seu cariz de decadente), os convivas do Congresso cantaram sisudos, compenetrados e unitários, o espantoso hino do “contra os canhões, marchar”. 

A propósito daquele hino e imaginando a compostura democrática dos 1700 convivas - na sua esmagadora maioria relegados à função de ouvintes, mudos e quedos - a entrar no auditório, lembrámo-nos de uma canção do Fernando Tordo, “A Tourada”, cuja letra a seguir reproduzimos:  


Não importa sol ou sombra
camarotes ou barreiras
toureamos ombro a ombro
as feras.
Ninguém nos leva ao engano
toureamos mano a mano
só nos podem causar dano
a espera.

Entram guizos chocas e capotes
e mantilhas pretas
entram espadas, chifres e derrotes
e alguns poetas
entram bravos cravos e dichotes
porque tudo o mais
são tretas.

Entram vacas depois dos forcados
que não pegam nada.
Soam brados e olés dos nabos
que não pagam nada
e só ficam os peões de brega
cuja profissão
não pega.

Com bandarilhas de esperança
afugentamos a fera
estamos na praça
da Primavera.
Nós vamos pegar o mundo
pelos cornos da desgraça
e fazermos da tristeza
graça.

Entram velhas doidas e turistas
entram excursões
entram benefícios e cronistas
entram aldrabões
entram marialvas e coristas
entram galifões
de crista.

Entram cavaleiros à garupa
do seu heroísmo
entra aquela música maluca
do passodoblismo
entra a aficionada e a caduca
mais o snobismo
e cismo...

Entram empresários moralistas
entram frustrações
entram antiquários e fadistas
e contradições
e entra muito dólar muita gente
que dá lucro as milhões.

E diz o inteligente
que acabaram as canções
.[2]



Como convém no âmbito dos próceres do trotsko-estalinismo, o conclave teria de evidenciar uma linha justa, a proposta pelos caciques que, sensíveis aos ventos democráticos, incluíram umas quantas alterações propostas pelas “bases”. Impensável mesmo, seria a não existência de um documento final, agregador, uma vez que na lógica unanimista e autoritária, não há lugar a um simples evento de cruzamento de ideias, à expressão da diversidade enriquecedora, à presença de debate entre alternativas distintas. O debate formal tem de se balizar pelas marcas previamente estabelecidas pelos “organizadores”, admitindo simples ajustamentos de pormenor. O modelo democrático seguido em março na Activar e na Primavera Global de maio, horroriza-os.

A censura[3] incidente sobre textos recebidos de inegável qualidade - e que conhecemos - muito acima da geral banalidade dos textos divulgados no site do Congresso, é reveladora do conceito de democracia vigente entre os promotores. O que fugisse aos estreitos parâmetros da verdade definida uns cem anos atrás nos cânones de Lenin ou Trotsky, ficou condenado ao banimento; entre alguns conhecidos escudeiros do Carvalho da Silva, perpassou certamente uma imagem de esquerdistas a caminho do Gulag. Enfim, assim se manifestou o lápis azul dos zelosos gauleiters dos interesses da burocracia político-sindical que ajuda a Troika e o governo a manter os portugueses mansos, obedientes e resignados. Para os promotores do tal Congresso, a democracia é apenas a permitida por esses interesses. São democratas ma non troppo. A Comissão Organizadora continuará em funções sem qualquer discussão sobre a sua composição, mandato ou votação legitimadora; afinal, também Stalin e Trotsky estavam no anfiteatro.

E ainda para que a convergência seja maior, são convidados para o grupo elementos do PS a quem se dá protagonismo, na procura de atrair outros membros daquele grémio, sem tacho ou, somente descontentes com Seguro, espécie de alter ego de Passos. O Congresso do Alterne surge, claramente, como uma tentativa do BE de apresentar uma fotocópia desbotada pelo tempo, da criação de um MDP/CDE, numa aplicação serôdia do “Rumo à Vitória” de Cunhal, como uma aliança de “portugueses honrados”, zangados com a postura neoliberal e conservadora dos seus referentes; afastando, vade retrum, anarquistas e esquerdistas avulsos de diversos matizes, renitentes em aceitar tutelas partidárias, também de acordo com a teoria e a prática cunhalista.


1.2 - Abordagem sociológica

Antes de nos debruçarmos sobre algumas das conclusões do Congresso do Alterne analisemos o perfil da base de apoio dos seus promotores, considerando como amostra a lista dos 3763 subscritores, a despeito da má qualidade dos dados disponíveis para efeito de apuramento estatístico. Essa despreocupação pela qualidade dos dados é reveladora de que aos seus promotores pouco importa proceder a uma avaliação das camadas sociais ou profissionais apoiantes mas, somente proceder a um exercício de propaganda, de fixação de crentes e não de enriquecimento democrático. Note-se que o número de subscritores foi mais do dobro dos participantes no evento; a internet favorece estas discrepâncias.

Escrutinámos os referidos subscritores do Congresso, em função das suas profissões ou situações laborais ou ocupacionais, tendo em atenção que os resultados que apresentamos não são somáveis, uma vez que muitas pessoas optaram por apresentar mais do que uma caraterização profissional ou social, sendo portanto considerados em duplicado. Observem-se em seguida, algumas conclusões:

·       O maior grupo dos subscritores - 543 (14.4%) - são paisanos reformados, independentemente da sua profissão, excluindo, portanto, o caso dos militares apoiantes que, serão também aposentados, dado que formalmente, quando nas fileiras, os militares têm de ser eunucos políticos. Os reformados aqui contados não são tomados em mais nenhuma categoria profissional ou de qualificação;

·       O segundo grupo individualizável é o dos professores, não qualificados como do ensino superior, adiante considerados. São cerca de 11.2% do total, havendo bastantes que são também sindicalistas, mandarins ou com outras ocupações; os professores do ensino superior são 6.7% do universo, havendo também muitos que contribuem para a contagem de grupos de qualificação profissional;

·       Os estudantes - sem se considerar doutourandos, bolseiros ou investigadores - são apenas 165. Esse escasso número atesta o grau de despolitização dos jovens que, nem o conservadorismo da esquerda lusa consegue atrair e, permite que se pense no desajustamento que há entre o interesse dos professores do ensino superior por este evento da esquerda institucional e o pouco entusiasmo que o Congresso, protagonizado por gente bem conhecida da dita esquerda, gera entre os estudantes. Há um problema de comunicação, de linguagem entre professores e alunos, entre gerações ou, o discurso conservador da esquerda institucional não se apresenta capaz de combater a despolitização e o desencanto dos jovens, beneficiando, naturalmente, o conservadorismo social “mainstream”;

·       Os bolseiros, doutourandos e investigadores, estão relativamente bem representados entre os subscritores do Congresso (148), num quantitativo muito próximo dos estudantes, em fase anterior da sua formação. A precariedade da sua situação económica, o caráter autoritário da tutela de muitos lentes, a maior maturidade inerente à idade e ao grau de conhecimentos, torna este conjunto interessado nas temáticas propostas. Resta saber, se se revêem nas conclusões apresentadas pouco democraticamente pelos caciques partidários, no recato dos gabinetes ou, se o seu interesse pelo Congresso não é a procura de um protagonismo conducente a um lugar de mandarim, assessor de mandarim ou correlativo. Faltou uma sondagem à saída do evento…

·       As pessoas da área da saúde são cerca de 6% do total, no qual os médicos representam pouco menos de metade, seguidos dos psicólogos, profissão muito marcada pelo desemprego, procurando assim, de modo ingénuo, na esquerda tradicional, a concretização dos seus anseios. Ou esfregam os olhos e organizam-se e lutam no seio da multidão ou esperam sentados pelas soluções saídas do pentapartido estagnado na AR;

·       Os desempregados, por seu turno, não parecem muito entusiasmados com o Congresso, detetando-se apenas 182, sendo de admitir que neste grupo haja diferenças claras entre a subscrição e a presença no conclave, uma vez que nem todos terão tido dinheiro para deslocações a Lisboa;

·        Os advogados (98) e os juristas (49) estão bem representados revelando a apetência de muitos para o mandarinato e o correspondente tráfico de influências, ambicionando, porventura, a bela vida de colegas deputados, de manhã na AR e à tarde nas empresas de advogados a elaborar leis encomendadas pelo governo;

·        Os economistas são 119, certamente, fiéis defensores do intervencionismo estatal, da nacionalização, do keynesianismo, provavelmente proponentes de um retorno a um “modelo social europeu”, como se o neoliberalismo, sendo naturalmente temporário, possa ser reencaminhado para as estruturas políticas, económicas e sociais do princípio dos anos setenta do século passado. Estão, neste grupo os propagandistas da reestruturação da dívida como Castro Caldas ou paladinos do disparate como José Reis[4], antigo secretário de estado de Guterres;

·       As gentes das artes e do espetáculo (166), também em contexto complicado de subsistência gerado pelas políticas governamentais, estiveram também muito presentes neste evento da esquerda institucional, à procura de apoios para a defesa dos seus direitos. O mesmo sucede com os trabalhadores da função pública (139) que, tomados por madraços inchados de mordomias, esperariam que os chefes do alterne lhes apresentassem uma alternativa à miséria, à inanição e à sanha genocida protagonizada pelo governo do indigente mental Passos;

·       Os numerosos militares reformados (76), revelam uma coexistência curiosa entre os repressores e os reprimidos de 25 de novembro de 1975. Não sabemos se tal harmonia resulta do espírito corporativo típico dos militares ou do beatífico espírito unitário incutido pelos chefes e gurus do Alterne;
 ·       Sindicalistas e outros mandarins somam 109 almas, predominando entre os últimos, deputados da esquerda do regime mas, também alguns da ala menos à direita do partido-estado, brilhantemente conduzida pelo Seguro, habilidoso equilibrista que contesta o programa do governo, aceitando o memorando e a incontinente interferência da Troika que … construiu o programa do governo. Confuso mas, real. Note-se que uns quantos mandarins, apresentaram-se com o chapéu das suas qualificações profissionais, deixando o cartão do partido em casa, para se mascararem de “bases”, num ensaio para o Halloween;

·       Conhecendo-se a impenitente defesa do obreirismo na constelação trotsko-estalinista patrocinadora do Congresso, é espantosa a baixíssima presença de operários ou profissões reveladoras da presença do proletariado industrial… se descontarmos uns quantos entre os esforçados sindicalistas. Aliás, quando alguém afirma como principal profissão “sindicalista” revela o seu caráter de burocrata, de funcionário, provavelmente isento do que é trabalhar sob o autoritarismo patronal, o risco de despedimento e perda de salário. Para utilizarmos a linguagem típica do PC – aliás, marginalmente presente no convénio – predomina entre os subscritores a pequena burguesia dos serviços e o conjunto dos “intelectuais”, designação que o partido ainda utiliza para referir os licenciados, reportando-se a um tempo, décadas atrás, em que a posse de um “canudo” era uma excepção num país de iletrados e, longe da precariedade e do desemprego que os assola, também, nos dias de hoje. Essa postura provinciana faz equiparar licenciado a intelectual… pelo que Relvas será um intelectual e Saramago um trabalhador braçal pois utilizava a caneta como instrumento de trabalho;

·       Nada mais contrastante com a ausência da “classe operária” que a forte representação de empresários (67) e gestores, administradores ou gerentes de empresas (80); imaginamos a alegria dos patrocinadores com a presença de patrões, provavelmente daqueles que preferem jantar um prato de sopa a proceder a despedimentos. Este elemento dos subscritores do Congresso explica o constante namoro ao PS e a tranquilidade de muitos patrões face a esta “extrema-esquerda”, na designação da direita lusa.

Como é habitual, o PC não mostra na sua página a notícia do Congresso; não sendo sua iniciativa, nem parte da sua estratégia, foi um não-acontecimento que os seus devotos não precisam de saber, por decisão do CC. Para mais, o convénio continha bastantes ex-pc ou elementos menos ortodoxos como o Carvalho da Silva, gente que  ainda não foi para o PS… mas que está na fila.
 
Em paralelo com este convénio e os costumeiros desfiles do Arménio, foi desenterrado um tal Movimento dos Trabalhadores Desempregados (MTD)[5], nascido por obra e graça de S. Jerónimo Magno em 2009, então com direito a faixa em manifestação da CGTP e a ter uma… direção nacional! Claro que ninguém sabe quem são os membros da direção nacional, das direções regionais, nem onde foram eleitos. Depois de três notas no blog naquele ano, o tal MTD passou 2010 em hibernação e em 2011 teve uma breve ressurreição, para recolocar uma foto de …2009. Em setembro último o MTD acordou para capear a marcha contra o desemprego terminada no dia 13 de outubro e, provavelmente, irá ser utilizado pelo PC para concorrer com o MSE – Movimento dos Sem Emprego, de génese trotskista. O PC/CGTP não pode correr riscos de ver alguém ocupar uma área muito sensível à radicalização nestes tempos conturbados de desemprego a crescer em flecha; o controlo social e a segurança no emprego dos burocratas sindicais assim o exige.
 
1.3 – A Declaração do Alterne

O que se viu no Congresso do Alterne foi que a única alternativa realista existente – mudança de paradigma económico e de organização política – é omissa;  e que a alternativa expressa – o pacto social – está morta, perante a pressão do capital financeiro internacional e a construção de um estado de exceção em que tudo é sacrificado para a satisfação do programa da Troika, algo que ainda irá durar bem mais do que os próximos cinco anos, caso se não verifique um levantamento popular que liquide o regime político cleptocrático.

Vejamos a matéria de alguns pontos da “Declaração do Congresso Democrático das Alternativas” - Resgatar Portugal para um Futuro Decente[6]:

·       No ponto 1.2 são omitidos os responsáveis pela assinatura do Memorando – a ala PS do partido-estado, PSD/PS; apenas se refere que o governo (o actual) foi capturado ideologicamente! Ilibando o PS, tenta-se branquear junto do povo as responsabilidades daquele partido na situação atual, como que dando uma indicação de voto no PS, como versão mais meiga ou menos amarga que o PSD; fica assim branqueado o comportamento da mafia socratóide desde 2005;
 
·       Por outro lado, ignora-se que o próximo governo será, provavelmente, de bloco central. Procedendo dessa maneira, ignorando essa realidade, os alternantes oram aos deuses para que o PS vire à esquerda, aceite uma “unidade nacional”, coopte alguns dos ilustres conferencistas para o governo - e outros como assessores -  para lhe dar um cheiro de “esquerda” e sossegar pessoas que se pretenderão agarrar a algo que lhes possa servir de esperança. Esperar um PS de esquerda é aguardar que um texugo cheire a rosas e, desse modo, a esquerda institucional oculta uma evidência; a de que apenas serve para o controlo social, para o qual está melhor colocada que a direita, emanação direta do capital;
 
·       Finalmente, afirmar que o governo foi capturado ideologicamente é idiota pois a sua própria matriz é a do neoliberalismo mais radical. Ninguém é capturado pelo que gosta e aprova;

·       O caráter de “esquerda” deste Congresso pode ver-se, caricaturalmente, pela presença da palavra capitalismo ou capitalista em três dos seus textos temáticos construídos pela brilhante equipa organizadora do concílio. Há apenas uma menção “As democracias liberais edificadas como arquitetura política do capitalismo…”, que, embora seja uma afirmação trivial, deve ter escapado aos censores. Nas 18 páginas da Declaração do Congresso, não há qualquer referência ao sistema económico que, aparentemente não tem nome ou é considerado como o fim da História, como defendido por Fukuyama[7]. E, portanto, o capitalismo está isento de responsabilidades, é apenas um reles detalhe técnico;

·       No mesmo ponto 1.2, o memorando é considerado “infeliz” como se resultasse de um descuido, de algo menos pensado pela Troika e pelos seus subscritores; como se fosse um golo na própria baliza. Esta observação, exemplar, prende-se com o projeto da esquerda institucional que, desistindo de analisar as caraterísticas do capitalismo de hoje, se reduz a avaliações quantitativas e de competência técnica. Estupidamente, repete por aí a incapacidade técnica de Gaspar, dos seus homens e da própria Troika, que “não querem ver” os impactos negativos da aplicação do memorando sobre a grande maioria dos portugueses, que revelam “insensibilidade social”, etc.[8] Eles até devem estar cheios de boas intenções mas, coitados, não percebem o mal que provocam e Lagarde até acha que os portugueses estão fatigados com a austeridade… Deus guarde os pobres de espírito pois será deles o reino dos céus!

·       Quando a realidade política é observada do ângulo das competências técnicas, da moral dos agentes políticos ou económicos, estamos no âmbito da metafísica ou da mais grosseira aldrabice. Se não acreditamos que Gaspar seja idiota também não admitimos que no leque de crânios que produzem o pensamento político da esquerda institucional prepondere a imbecilidade. Trata-se, sem dúvida de um cálculo político que evita denunciar as caraterísticas do capitalismo de hoje, do domínio do capital financeiro, pactuando, de facto, com este último, sob a capa de divergências processuais ou de estilo. É uma forma encapotada de evolução na continuidade, do conservadorismo que permite as chefias partidárias e os seus deputados terem uma vida sem sobressaltos. E por isso, acentuam como solução da crise e do fim da austeridade, a importância da queda do governo, de eleições, reivindicação sempre presente desde 1976, com muito parcos resultados. O problema é o sistema, não é só o governo;

·       A Troika e Gaspar sabem muito bem que as medidas que vão sendo tomadas encaminham rendimento para o capital financeiro global, que permitem a recuperação dos bancos portugueses, que favorecem as empresas de regime, que promovem um rebaixamento dos salários, das condições laborais e dos direitos sociais. A ideia é a de uma brutal redistribuição regressiva de rendimentos que promovam um espaço de baixos salários e que torne Portugal … competitivo face à Ásia e ao cone meridional da América do Sul; o fomento da emigração e as políticas genocidas dirigidas a cerca de metade da população visam um recuo populacional, necessário para um país mais… competitivo. Tudo, aspetos que a esquerda do sistema oculta, para que o tempo vá passando e a multidão continue entretida com discursos parlamentares, telenovelas e futebol;

·       No ponto 1.3 , aponta-se que a alternativa deve “basear-se num compromisso comum das forças políticas e sociais que dão valor ao desenvolvimento e à inclusão social, afirmam a dignidade do trabalho, estimam o papel da esfera pública e defendem uma democracia robusta”. Um saco cheio de gongorismos com vestes keynesianas;

·       Em 2.1 fala-se na renegociação da dívida após denúncia e, aparentemente, os congressistas deixaram cair a auditoria, há um ano tomada peça central para apresentar à Troika, bem como as contas feitas pelos mosqueteiros da IAC, certamente com argumentos tão esmagadores que o Selassie ficaria mesmo sem saber o que seria. A inevitável reestruturação da dívida pressupõe um ambiente de renegociação para salvar a face do governo perante a população, fazendo-lhe crer à plebe que os mandarins servem para alguma coisa e, que lutaram como leões contra a malvada Troika. Como a “determinação firme de Portugal” não passará pela ruptura – em caso algum os alternantes terão uma postura unilateral de suspensão dos pagamentos do serviço de dívida - a Troika tem a tarefa facilitada, uma vez que em vez de firmeza, encontrará a frouxidão no lado do partido-estado, PSD/PS, com ou sem o CDS pela trela;

·       Em 2.2 diz-se que “A abertura de negociações com as instâncias internacionais sobre o Memorando é a principal e mais urgente tarefa de um governo democrático”. A reivindicação é foguetório, uma vez que a reestruturação é inevitável, é uma certeza, estando prevista desde há muito tempo a renegociação para troca de empréstimos de curto prazo por outros, de longo prazo e taxas de juro mais baixas. O insuspeito jornal inglês “The Economist”[9], espelho dos interesses do capital financeiro, afirmava recentemente que “o ‘timing e a dimensão de uma reestruturação da dívida são difíceis de prever, mas que tal poderá acontecer no final de 2013” quando o Gaspar previa o retorno ao “mercado”. Na política institucional apontar para um facto futuro certo é a preparação para, no momento da sua efetivação, os mandarins apontarem ao povo as suas competências. Em tempo de seca, não é preciso ser meteorologista para se afirmar que acabará por chover;

·       A renegociação será levada a cabo com a presença do PSD/CDS ou do PSD/PS, se houver reformulação governamental na primavera. Sucede que a Declaração do Congresso afirma ser a abertura de negociações a mais urgente tarefa de um governo democrático. Assim sendo, será um governo de direita a protagonizar essa negociação e, assim, esse governo será implicitamente democrático porque… cumpre as reivindicações do pessoal do Alterne, ficando assim, os partidos de direita com a cara lavada. Como é notório, nem o PC, nem o BE serão chamados a dar uma caução democrática a esse próximo governo.

·       Por outro lado e apesar da fragilidade do governo atual, o PS não está interessado em eleições, em vir a assumir a gestão da crise e da aplicação das receitas da Troika; Seguro foi programado para aguentar o partido na oposição e nunca para primeiro-ministro. Qualquer sinal de que o PS poderá estar interessado (ou obrigado) em tomar conta do pote partirá da substituição de Seguro, tal como sucedeu com a invenção de Sócrates em 2005. A posição do PS é ir falando grosso para eleitorado ver mas, afastar-se do “radicalismo” do coro do PC/BE que clamam por umas eleições que lhe não interessam. A queda do governo dependerá essencialmente de Portas e, mesmo assim, não seria estranho que Merkel impusesse um governo das duas alas do partido-estado, sem mascarada eleitoral, a partir do manuseamento de Cavaco; seria institucionalmente menos grosseiro do que a nomeação de Papademos e Monti, em 2011, respetivamente na Grécia e na Itália;

·       No ponto 2.3, em linha com o que diz o governo e toda a direita, a reestruturação da dívida não poderá colocar em causa o financiamento externo que tem vindo a ocorrer, no âmbito do Memorando, ficando assim claro que no contexto do leque ideológico contido no Congresso, não haverá qualquer ruptura com a Troika. Recorde-se que a saída do euro (e da UE) é uma hipótese defendida apenas pelo PC - não publicamente – e que tem toda a lógica no quadro da sua deriva nacionalista; porém, essa posição é meramente tática, para fixação do seu conservador eleitorado, para marcar uma diferenciação agregadora, face à concorrência. O disparate é tal que não se atrevem a colocá-lo na praça pública, como o fazem os irmãos do KKE e dos pândegos vizinhos do PCPE;

·       Para as gentes presentes no Congresso, em grande parte sócios ou simpatizantes do BE, refere-se que “Portugal deve preparar-se para uma resposta da Troika que passa pela suspensão do financiamento acordado até 2013” num cenário europeu desfavorável e em 2.4 admite-se que “a resposta ao corte do financiamento fosse a declaração de uma moratória ao serviço da dívida”. Esta posição, reativa e afastada de uma iniciativa própria é semelhante à apontada pelo Syriza na Grécia, antes das eleições de junho; porém, o Syriza estava inserido numa estratégia eleitoral, num contexto em que a coligação grega tinha, então, sérias possibilidades de chegar ao poder e, esse simples facto atribuía-lhe uma credibilidade para a captação de eleitorado social-democrata que a esquerda institucional portuguesa está longe de ter;

·       Em caso algum os chefes do Congresso admitem uma iniciativa de moratória, com suspensão do pagamento do serviço de dívida[10], com a mobilização dos portugueses para o efeito, eventualmente concertados com a Grécia, a Espanha e a Itália, particularmente; apenas se admite a moratória, em reação, no seguimento de uma atitude de exclusão da parte da Troika;

·       Como se renuncia à iniciativa libertadora do torniquete definido pelo capital financeiro global e se aponta exclusivamente para a renegociação do memorando aceita-se, concomitantemente, a continuidade de um texto definidor não só da política económica e financeira como de toda a arquitetura dos direitos sociais e laborais, a efetuar de acordo com os interesses do capital financeiro e dos desígnios do empresariato luso, mormente as empresas de regime e dos meios exportadores. O naipe das “sensibilidades” mandarínicas que elaboraram a Declaração não se apercebe da contradição entre a aceitação de uma renegociação do memorando portador de limitações à soberania e o seu discurso patriótico. Arrotam diatribes patrióticas para fomentar e captar simpatias nacionalistas enganando os potenciais eleitores do BE ou do PC, com promessas vagas e vãs de aumento do emprego, de “defesa do Estado social”, “redução da dependência externa”, “reivindicação do direito ao desenvolvimento”, etc; ao mesmo tempo que defendem e se dispõem a aceitar a suserania externa da Troika, mesmo que aligeirada, numa renegociação do memorando. Em suma, acenam todo o arsenal ideológico de concertação social dentro de cada estado nacional, no quadro do capitalismo, temperado pelo reformismo keynesiano - surgido no pós-guerra na Europa Ocidental e já em decadência quando o regime fascista caiu em Portugal – para captar eleitorado;
 
·       No ponto 2.6 da Declaração afirma-se que a denúncia do Memorando significa o declínio e, convém sublinhar que aquela deveria ser apenas um princípio para evitar a brutal deriva empobrecedora e de regressão democrática em que estamos. O que se passa é que a atual re-hierarquização das regiões europeias, passa pelo aumento das desigualdades internas dentro da UE, com perdas evidentes para as periferias a sul. Esse modelo anula qualquer lógica de solidariedade federal entre as diversas regiões, o que aliás nunca se evidenciou em toda a história da integração europeia, apesar de toda uma propaganda de décadas. Sabe-se que os fundos estruturais visaram sobretudo, facilitar o comércio intracomunitário e uma determinada divisão interna do trabalho[11]; e, numa fase mais recente, acentuou-se a utilização da dívida como instrumento de transferências de capital, da periferia para o centro da UE, num género de retorno dos fundos comunitários enviados para Sul durante duas décadas. Esse modelo, porém, tem adjacente um projeto concentracionário de poderes políticos e económicos, com a sua acrescida transferência para um conjunto de órgãos burocráticos diretamente emanados do capital financeiro, no desenvolvimento da apropriação dos estados por aquele, como vimos referindo, em textos anteriores. Em termos da estrutura produtiva, pretende-se a constituição na Europa do sul e a leste - e mesmo na bacia mediterrânica - de uma área de concorrência com a Ásia, dentro de alguns anos, não sendo certamente por acaso toda a concentração do dispositivo militar-estratégico da NATO no Mediterrâneo. Com as tecnologias atuais, com o primado da mercantilização, é evidente que se prepara um grande declínio populacional, a médio prazo, a partir das medidas de redução de rendimentos e direitos que se vão estabelecendo no sul da Europa;

·       A saída não é fácil. Uma saída nacionalista por expulsão do euro e/ou da UE, ou ainda através de um desmembramento da UE, está longe de promover o bem-estar dos povos e uma maior democracia; esta, hoje, já meramente caricatural. Somente uma saída internacionalista, de unidade solidária e articulada entre os povos e, mormente dos trabalhadores, com a destruição do poder financeiro, das multinacionais e do capital mafioso é uma saída de futuro. Essa construção envolve a instituição da autogestão nas empresas, reformuladas como unidades técnicas e não de poder capitalista; a gestão do comum com decisão democrática, na base, tendo como fito a satisfação das necessidades coletivas, sem Estado ou classe política. Só essa laboriosa construção conduz à saída do pesadelo atual ou ao seu periódico renovar.

·       Como dizem os caciques que escreveram a Declaração do Congresso, quem decide é o povo soberano mas, no seu entender, toda a arquitetura da organização política e da representação é insuperável uma vez que a Constituição é um elemento sempre perfeito, intocável, mesmo que as suas revisões tenham sempre conduzido a perdas de direitos. Na lógica da conservadora esquerda do sistema, o que existe é para manter, porque a evolução, o progresso, os assusta e faz temer que as coisas só poderão piorar; preferem manter o sistema que lhes dá subsídios estatais e garante postos burocráticos do que arriscar em alterações profundas no ordenamento político e económico. Por isso, não pode apontar os governos como bandos de vulgares malfeitores, práticos de gestão danosa ou corrupta, de comportamento anti-social e genocida, de obediência servil à finança global como aos ditames do Ricardo Salgado, do Borges ou do Saraiva. O sistema económico e os modelos de organização política e de representação não têm qualquer legitimidade, mesmo que beneficiem da moleza despolitizada da plebe lusa e da conivência aveludada da confraria da toga; 

·       Por estar bem instalada e dependente do Estado, a esquerda institucional não pode defender ou promover uma subversão do atual estado de coisas, com a reformulação radical do ordenamento constitucional. Assim, a sua responsabilidade em que 87% da população esteja desiludida com a democracia[12] é imensa, não os vai beneficiar particularmente e, seguramente, não favorecerá o necessário aprofundamento democrático, com o prejuízo evidente para a multidão em processo galopante de empobrecimento e perda de direitos;

·       Daí, como diz o José Mário Branco, “consolida, filho, consolida”. Consolidam os lugares e as mordomias na AR, os discursos redondos e empolados, numa linguagem repleta de floreados que ninguém usa, sobretudo quando se lembram de ser criativos; consolidam os postos nos sindicatos, com a ajuda de estatutos que bloqueiam a democracia e qualquer alternativa; consolidam as mesmas práticas de manifestações rituais em fevereiro, maio e novembro, com a luta que continua e o governo que vai para a rua, como todos, aliás; e aproveitam a consolidada relação com a polícia sempre que alguns insubmissos não conhecem o verbo consolidar. Importante, sempre, é que haja sucessões de governo para que o regime se consolide. Alguma coisa tem de mudar para que nada de substantivo se altere. E por isso, pensamos lançar uma petição para que Cavaco, fóssil bem consolidado, se não esqueça (ai o Alzheimer!) de atribuir medalha ao Carvalho da Silva pelos seus 25 anos a consolidar o controlo social, cujas canseiras ainda lhe deixaram fôlego para inventar pífias auditorias cidadãs e magnos concílios do alterne;

22 de outubro de 2012

A despolitização, o controlo social e as alternativas


1 - A despolitização e o controlo social
2 - Elementos básicos para a construção de alternativa

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1 - A despolitização e o controlo social

Os tempos estão difíceis.

Estão difíceis para a multidão, pelas questões que sabemos – desemprego, cortes nos rendimentos e nos direitos, falsa democracia, ausência de futuro… Pretendemos capear, em seguida, essas dificuldades, por uma razão que se situa a montante, uma razão que, verdadeiramente, introduz dificuldades na compreensão do momento que se vive e, no desenvolvimento de uma contestação organizada e genuína, de refundação democrática da solidariedade e da equidade. A despolitização.
A despolitização das últimas décadas, programada pelo poder, está contemplada na Constituição, ao remeter para os partidos – com legalidade e subsistência financeira assegurada pelo Estado – todo o protagonismo na ação política. E é errado acusar exclusivamente a classe política saída do PREC, por isso. À medida que o tempo foi passando, o povo foi engolindo as várias colheres de xarope de histamínicos para se manter sonolento, sem os efeitos da alergia que convenientemente deveria ter sentido, desde que o regime fascista caiu, face aos gangs mafiosos que têm constituído o grosso da chamada classe política.

Numa primeira fase, o povo foi engolindo a necessidade da “consolidação democrática” excelentemente retratada por José Mário Branco no seu “FMI” (consolida, filho, consolida!) quando, de facto, o que se consolidava era o poder do capital e a corrupção, sua inerência, em termos monetários e de valores;

Depois, seguiram-se as colheres da “maioria de esquerda” em que o PC mascarava o seu confortável conformismo com a eterna espera de que o PS desenterrasse o seu parco esquerdismo do passado; e assim, o povo esperava, adiava as mudanças, talvez para as próximas eleições, cada vez menos participadas;

Entretanto, advieram duas doses de “FMI”, mistura de purga e diurético que provocaram forte desarranjo na vida dos trabalhadores, em 1977/79 e 1983/85; mas, os portugueses são um povo de fé e continuaram a encontrar a alegria de viver no consultório do médico de família, o PS/PSD;

O xarope seguinte veio do exterior e tinha na embalagem o rótulo “CEE”. De acordo com a bula inclusa, curava a tosse mais impertinente, a bulimia, a falta de estradas, de dinheiro, de amigos, de prestígio… E não teria contra-indicações para grávidas, cardíacos, epiléticos ou diabéticos;

A felicidade era tanta quanto a dos jovens caloiros fardados de negro depois de beberem 20 ginginhas no Rossio. Foram sorvidas doses industriais de fundos comunitários e crédito, à medida que se passeava nas novas autoestradas vendo a indústria definhar e a pujança de uma bem visível nova indústria, a do imobiliário, ouvindo o mavioso som das betoneiras;

Entretanto, veio a receita do euro, sem redução do fluxo de dívida nem da saída de capitais para o exterior. Está tudo bem, assegurava-se no consultório do PS/PSD; as dores nas costas é do tempo, as digestões curam-se com dieta, a prisão de vente com um laxantezito, as impinges com uma pomadita, a queda do cabelo com um elixir, as mamas descaídas com uma cirurgia plástica, a disfunção eréctil com uns comprimidos azuis… mesmo para os benfiquistas mais ferrenhos;

A alegria feneceu, não com a gripe aviária ou a gripe A, mas com quatro frascos de PEC e uma consulta ao especialista Troika, depois de uns açoites dados pela mamã Merkel, a Sócrates e Passos. Tudo acabará em bem, para si e sua excelentíssima família, aconselhou o médico de família, PS/PSD, na presença do estagiário Portas, após um esforço coletivo e algumas, poucas mas, notórias excepções.

O consumismo, adocicado com doses de xarope, ou as doses de xarope acompanhadas de consumo real ou projetado afetaram a capacidade de pensar e causaram efeitos colaterais na visão, contribuindo, em conjunto, para uma feliz despolitização, conveniente para a impune montagem de um estado de cleptocracia avançado.

Assim e apesar do seu arrastar de modo larvar, a crise, ao explodir em 2008 com ondas de choque crescentes com a passagem do tempo-espaço (ao contrário das bombas), encontrou uma população desprevenida e desprovida do hábito e da capacidade para uma abordagem mais profunda das causas, dos efeitos e das soluções.

Em 2011 foi ensaiado um xarope placebo chamado eleições, que substituiu a diarreia pela disenteria; e entretanto, os laboratórios da margem esquerda do parque industrial do controlo social mostram-se muito ativos na promoção do mesmo produto, na esperança de melhorarem as suas comissões de venda e assim garantirem ou, mesmo criarem, novos postos de trabalho, com rebuçados do dr. Keynes.

Na realidade, a plebe hesita ou mostra-se mesmo consciente de que o médico de família PS/PSD está velho, gordo, reumático e gangrenado, só resistindo porque ligado à máquina da repressão e ao apoio comunitário; no entanto, há quem dê ouvidos à gritaria dos delegados de propaganda dos laboratórios da margem esquerda, reles vendedores de banha da cobra, ainda que com qualidade atestada pela ASAE.

A ilusão resultante da despolitização provocará o comodismo da toma do fármaco eleições; ou, será a preguiça mental que constrói a ilusão de que tudo passará, através do funcionamento do mercado de bens e de serviços, incluindo nestes, os eleitorais?

Pouco importa se aquilo a que se assiste é a um arrastar dolente – apesar das marchas e procissões, dos gritos, das faixas inflamadas e dos sentidos epítetos dirigidos à mãe de Passos - sem ser sentida ou assumida a necessidade da morosa e difícil construção de alternativa, para além e contra o sistema de ditadura do mercado e das suas instituições. Nesse entretanto e para o efeito, afadigam-se no seio do movimento social, os novos e velhos sofistas, candidatos a mandarim, no sentido de reconstruir o controlo social e tornarem-se os seus gestores.

Os quadros partidários têm, em geral, baixa cultura política, mesmo quando possuidores de elevadas habilitações académicas; para confraternizar com uma plebe ignara e mansa, vai chegando. Em contrapartida, sentem-se confortados por se inserirem numa cadeia hierárquica, detentora da “linha justa” e sobra-lhes um forte espírito de pertença à seita, semelhante ao das claques do futebol, mais baseado na emoção, no espírito de grupo, do que na endogeneização de uma capacidade argumentativa.

Perante os neófitos ou potenciais recrutáveis, aquelas são as caraterísticas que mais usam, acenando com o conforto de se estar num grupo alargado, quando o contexto social, sabemos todos, é gerador de isolamento e individualização. A tática para o recrutamento não é diversa da utilizada pela IURD ou pelas Testemunhas de Jeová junto de suburbanos desenraizados.

Nesse contexto, reagem, sempre ríspidos, às críticas vindas de meios anarquistas ou alternativos ou, encolhem as orelhas, não respondendo às mesmas, para evitar discussões onde se possa evidenciar mais a pobreza política do partido junto das “massas”; e logo se sentem tocados quando alguém critica o seu clube, tomando a crítica como algo próximo do ataque ou ofensa pessoal. Parece que, como pessoas, se anulam em função da sua claque, como as formigas face ao formigueiro. A não reivindicação de carta de alforria pouco acontece porque no fim da sua estrada está um cargo de mandarim e mordomias estatais.

8 de julho de 2012

O Tribunal Constitucional e o roubo dos subsídios


O Tribunal Constitucional e o roubo dos subsídios

O TC e a sua “fatwa”

Já sabemos que o Tribunal Constitucional (TC) é uma instituição do partido-estado PS/PSD. Para os mais desatentos, recordamos aquelas discussões internas, sempre que há cadeiras a preencher, quando algum dos ungidos juízes  passa à (dourada) reforma.

A imagem seguinte atesta o bolor que dali emana. Pela postura solene, pela negra farda utilizada, o naipe de celebridades jurídicas mais se parece com outro famoso tribunal, já enterrado na História - o do Santo Ofício. E, como na sinistra Inquisição, estes juízes  não são objeto de escrutínio democrático e constituem uma instância de lapidares e inapeláveis decisões – “fatwa”, como no Islão mais rigorista.


O dito TC emitiu uma “fatwa” no passado dia 5 de julho do ano do Senhor de 2012, apesar do voto divergente de três dos seus membros. Sem desonerar os trabalhadores da administração pública nem os pensionistas dos efeitos do assalto aos rendimentos decretado pela troika, através do chamado governo, o TC abre a porta para que o dito governo vitime os trabalhadores do setor privado com idêntico roubo.

Amor, com amor se paga. O mesmo partido-estado que nomeou os insignes juízes , para cargos tão repousantes e isentos de avaliação, recolhe, na volta do correio, os frutos da confiança depositada e da obediência desejada.


A “fatwa” do TC, mais conhecida por acórdão

O princípio da igualdade alegado pelos doutos juízes  só tem aplicação para 2013. O ano corrente fica assim, decretado na “fatwa” do TC, como um ano de desigualdade. As mesmas leis em vigor têm uma interpretação distinta, de acordo com o ano civil que se queira considerar. Sendo o direito real um verdadeiro bazar há, certamente, uma lógica para isto, por muito esdrúxula que possa ser. E se não houvesse, pouco importaria, porque o TC é um género de Deus ex machina, cria matéria a partir do vácuo; nesse entendimento, ficamos dispensados de arcar com o elevado custo do recurso às habituais sociedades de advogados.

Face à decisão do TC, imaginamos o bater de palmas em reunião do conselho de ministros enquanto a partícula de Relvas (Passos), aparece, pesaroso, dentro do seu ar de sonâmbulo, a dizer que vai cumprir a “fatwa”. Mas entretanto, descansa a suserania internacional informando que não irá fazer nada sem o aval da troika. Tocante, esta sinceridade.

Vejamos. O governo garante, em 2012, a arrecadação dos subsídios de férias (já concretizada) e fica descansado quanto a semelhante saque em novembro. Nada de novo, com ou sem “fatwa”.

Várias vezes foi levantada a questão do assalto aos subsídios dos trabalhadores do setor privado, como reserva estratégica para o cumprimento do santificado memorando da troika. Perante a evidência de que a meta do deficit inventado pelo Gaspar para 2012 não vai ser alcançada, essa reserva estratégica vai ser ativada, como sempre foi claro; com a vantagem de contar, ab initio, com a última “fatwa” do TC, já emitida para os anos vindouros. Assim sendo, até a veneranda figura que costuma emitir dislates a partir de Belém, fica isenta de ser acusada de não pedir a apreciação da constitucionalidade da medida governamental, podendo dormir a sesta descansado.

Enquanto os cães ladram a caravana passa, com os alforges repletos do dinheiro roubado.

Para o TC, a questão não é a violência e a violação de direitos, a desigualdade da medida aplicada em 2012 a trabalhadores da administração pública e a pensionistas. A lógica do TC não é a aplicação do mal a alguns mas, o facto dessa aplicação não ter sido universal, de não ter recaído sobre todos os trabalhadores por conta de outrém. Que despautério! A questão, como colocada pelo TC é a de que o mal não foi generalizado e jamais a sua natureza maléfica.

Assim, o TC promove o sentimento de olho gordo para as vítimas do assalto de 2012, esperando que fiquem felizes por serem acompanhados em 2013, na redução de rendimentos, pelos vizinhos e amigos que o acaso colocou a trabalhar no setor privado.

Na lógica do TC, a aplicação da justiça constitucional faz-se pelo alastrar do mal praticado, não pela prática de actos que beneficiem ou evitem males à multidão. Os membros do TC revelaram não ter qualquer sentido de cidadania; emitem acórdãos, com a sensibilidade  de uma enfardadeira a produzir fardos de palha.


Análise política da “fatwa”

A interpretação do artº 282 da Constituição revela o comprometimento dos juízes  do TC com o poder cleptocrático e a soberania do capital financeiro global. Diz o nº1 do referido artigo que “a declaração de inconstitucionalidade ou de ilegalidade com força obrigatória geral produz efeitos desde a entrada em vigor da norma declarada inconstitucional ou ilegal e determina a repristinação das normas que ela, eventualmente, haja revogado.”

Em linguagem corrente, não iniciática, a declaração de inconstitucionalidade de uma norma torna nula essa norma e o retorno à situação que a dita norma pretendia alterar. Embora latim não seja algo em que estejamos familiarizados, não resistimos à citação de uma vetusta frase que calará fundo no espírito dos juristas: cessante ratione legis, cessat ejus dispositio[1]

No articulado das leis, começa-se sempre pelo elemento mais determinante, basilar da norma, deixando para os pontos subsequentes, os casos particulares ou excepcionais de aplicação. Sendo assim, o nº 1 acima transcrito, constitui o real alicerce do artigo e do seu espírito.

Os nº 2 e nº 3[2] do mesmo artº 282 referem, precisamente, casos particulares, sem aplicação no caso vertente.

Quando convém ao legislador, as leis deixam verdadeiros alçapões para admitir interpretações e soluções a contento do poder ou de quem tiver dinheiro para contratar advogados de maior gabarito ou nome no mercado da toga. Assim acontece com o nº 4 do tal artº 282 tão esprimido e esticado pelo TC; aí, o coletivo de togados encontrou a escapatória para satisfazer o partido-estado e transpor para acordão “their master voice”. Transcrevemos a seguir o nº 4 do artigo:

“Quando a segurança jurídica, razões de equidade ou interesse público de excepcional relevo, que deverá ser fundamentado, o exigirem, poderá o Tribunal Constitucional fixar os efeitos da inconstitucionalidade ou da ilegalidade com alcance mais restrito do que o previsto nos n.os 1 e 2.”

A segurança jurídica não pode ser utilizada como argumento. A equidade também não, porque o acórdão não aplica a equidade para 2012 e deixa subjacente a possibilidade da medida governamental ser estendida a todos os trabalhadores por conta de outrém, em 2013 e anos posteriores, sem que isso perturbe a habitual hibernação dos pacatos juízes  do TC. E, por outro lado, cabe perguntar se, em nome da equidade, o TC não irá chumbar as medidas por isentarem os esforçados “empresários” ou os preocupados especuladores, banqueiros e afins da imolação no altar da troika.

Que pensará o TC sobre o que seja o interesse público? Quase certamente entende ser do interesse público o que interessa a Portugal, sem cuidar de observar que Portugal é uma abstração, um conceito vazio, se não for materializado em gente, nas pessoas que nele residem, fonte de direitos e obrigações; embora os primeiros tendam a ser evanescentes e o aumento das segundas, galopante. Que sentido fará aceitar e abrir as portas à extensão dos sacrifícios em rendimentos e direitos para os trabalhadores e pensionistas se estes constituem a esmagadora maioria da população? Qual o interesse público que se constitui à revelia e em antagonismo aos interesses da população, excluído um punhado de empresários de topo, banqueiros e mandarins?

Cavaco não levantou questões de inconstitucionalidade quando o diploma definindo o assalto aos direitos e rendimentos de trabalhadores da administração pública e reformados lhe aterrou diante do nariz. No seu espírito tacanho de economicista, o orçamento estaria “uber alles” como ordenado pelo Merkel, para salvaguarda dos mercados financeiros. E o TC, no seu tosco argumentário, mais não faz que replicar a lógica do chamado presidente.

Nem um nem outro teve dúvidas; o primeiro, já nos seus tempos de alguma lucidez, havia proferido “raramente ter dúvidas”, coisa que também não ocorre aos muares. E os emissores de “fatwa” por definição também não têm dúvidas. Afastam ambos, PR e TC assim, liminarmente, o princípo de que ambiguitas, vel dubietas, in meliorem semper partem est interpretanda[3].

Torna-se pois lógico que, não tendo dúvidas nunca podem aferir se a interpretação que fazem é feita no melhor sentido; circulam numa “einbahnstrasse”, numa via de sentido único, sem rotundas,  cruzamentos ou entroncamentos. Sendo o melhor sentido, em democracia, aquele que corresponde ao mais favorável à maioria, Cavaco e o TC, como ungidos, colocam-se acima da plebe e definem eles o sentido único que paira nas suas cabecinhas, indiferentes ao impato das suas decisões sobre a multidão.

Observe-se, o parágrafo da peça jurídica do TC que, no âmbito do sistema cleptocrático se chama tecnicamente “acórdão” face ao qual a multidão tem muitas razões para o designar por “desacórdão”:

“Atendendo a que a execução orçamental de 2012 já se encontra em curso avançado, o Tribunal reconheceu que as consequências desta declaração de inconstitucionalidade, poderiam colocar em risco o cumprimento da meta do défice público imposta nos memorandos que condicionam a concretização dos empréstimos faseados acordados com a União Europeia e o Fundo Monetário Internacional, pelo que restringiu os efeitos da declaração de inconstitucionalidade, nos termos permitidos pelo artigo 282.º, n.º 4, da Constituição, não os aplicando à suspensão do pagamento dos subsídios de férias e de Natal, ou quaisquer prestações correspondentes aos 13.º e, ou, 14.º meses, relativos ao ano de 2012.”

Aqui se denota o significado de interesse público no pensamento togado.

O orçamento para 2012 foi aprovado em 2011. Foi preciso mais de um semestre para o TC emitir o acórdão? Não acreditamos que a interpretação vertida no acórdão tivesse necessitado de tanto tempo de aturado estudo dos treze conselheiros e dos seus assessores; não os temos em grande consideração em termos políticos e de cidadania mas, não os consideramos asnos. 

Se tivessem agido na devida altura, a execução orçamental não se encontraria “em curso avançado” nem se colocaria “em risco o cumprimento da meta do défice público”. Mas, não agiram, arrastaram os pés para permitir que o partido-estado pudesse cumprir o seu plano de saque dos trabalhadores da administração pública e dos pensionistas; agiram sim, em total conivência e da conveniência da facção do partido-estado no poder com a tolerância benevolente da outra ala do PS/PSD, “Seguramente”, para agora alegarem com o facto consumado.

A meta do deficit público é um instrumento de política económica e financeira, não é uma lei e o TC tem apenas de considerar e interpretar o que pode ser ou não antagónico com a lei fundamental; não tem de se preocupar com as questões conjunturais da ação governativa. E, por isso argumentar com a meta do deficit é um embuste que ficará impune dado o caráter de bula, de “fatwa”, o caráter inapelável dos acórdãos do TC. E por isso, quando Passos mostrou um ar preocupado com a situação, deveria estar a dizer aos seus botões “bom trabalho, companheiros, já nos safaram para 2013”. O seu correligionário Mira Amaral, funcionário da família Dos Santos apressou-se a clamar por despedimentos na administração pública[4]

Pior anda o TC quando argumenta com “os memorandos que condicionam a concretização dos empréstimos faseados acordados” para enformar o acórdão. O TC, desistiu da sua soberania e manifesta vassalagem aos interesses do capital financeiro internacional, a preocupação com as notações das agências de rating, as contas do ministério das finanças. Revela assim duas falhas políticas e éticas:

1.      que, para um TC o texto constitucional é O texto fundamental para um estado soberano e que reflete, naturalmente as obrigações do enquadramento internacional; ora, o memorando da troika não está contido, obviamente, na Constituição.

2.      que, como instituição, deve ter como substrato ético, não um interesse nacional abstrato mas, o interesse público, o da maioria dos residentes em Portugal.

Atuando como atuou, o TC só veio a evidenciar-se como estrutura partidária, veio dar razão aos que defendem a sua inutilidade prática para a multidão, sendo a Constituição um documento que, nas suas mãos, só admite as interpretações que beneficiam os poderes, só contemplando a satisfação da multidão de modo acessório ou ocasional.

Atuando como atuou, o TC só vem demonstrar que o constante apontar para as instâncias judiciais e de salvaguarda da Constituição por parte da esquerda institucional, representa uma forma de alimentar expetativas falsas na multidão e, nos trabalhadores em particular. Esse recurso é em geral, uma forma de alijar responsabilidades de esclarecimento e mobilização da multidão, colocando as decisões sobre os seus interesses, não nas suas mãos, na sua capacidade de luta e contestação mas, nas instituições do regime cletocrático, da democracia de mercado e do partido-estado, representante dos capitalistas lusos, delegado do capital financeiro global para a magna tarefa de empobrecimento e genocídio da multidão.

A escolha é clara. Democracia exige a supressão do partido-estado em toda a sua extensão, como temos vindo a demonstrar[5].


Este e outros textos em:



[1]     Cessando a razão da lei, cessa aquilo sobre que ela dispõe
[2]    “2. Tratando-se, porém, de inconstitucionalidade ou de ilegalidade por infracção de norma constitucional ou legal posterior, a declaração só produz efeitos desde a entrada em vigor desta última.”
“3. Ficam ressalvados os casos julgados, salvo decisão em contrário do Tribunal Constitucional quando a norma respeitar a matéria penal, disciplinar ou de ilícito de mera ordenação social e for de conteúdo menos favorável ao arguido.”
[3]   A ambiguidade ou dúvida deve sempre interpretar-se no melhor sentido
[5]   Sobre a democracia: A democracia e a sua usurpação (1ª parte)

http://pt.scribd.com/doc/85519669/Sobre-a-democracia-A-democracia-e-a-sua-usurpacao-1a-parte

     Para um novo paradigma político; a re-criação da democracia