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19 de junho de 2012

A Grécia, o Syriza e a esquerda menor portuguesa



Lições das eleições gregas de 17 de junho

É evidente que o resultado das eleições gregas nada irá resolver dos problemas do povo. Tudo indica que vai sair das eleições um governo frágil, saído precisamente das hostes dos responsáveis das desgraças que vêm recaindo sobre os gregos; das hostes da Nova Democracia e do Pasok, com um ou outro apêndice; na Grécia haverá uma versão helénica do PS/PSD, eventualmente de vida curta.

A análise dos resultados revela:

  • Houve uma nefasta sensibilidade de parte substantiva do povo grego face à campanha indutora do medo, da ameaça de maiores desgraças, do aceno de uma hecatombe, com saída da UE e do euro. Esse medo promoveu uma concentração dos votos na Nova Democracia, com a continuidade da penalização do Pasok;

  • Essa campanha foi claramente orquestrada pelo capital financeiro e pelos seus funcionários globais (FMI, BCE e Comissão Europeia), pelos seus executantes nacionais, com destaque para Merkel, pelos media e, ainda para os escalões mais baixos da criadagem europeia. Estes, felizes pelo seu sucesso no empobrecimento coletivo dos povos, pelo seu desempenho na repressão e redução de direitos são como os cães; ladram sempre mais alto que os donos. É de elementar justiça, quando se fala de criadagem ou de cães, referir o dileto rafeiro da Merkel, o Passecos;

  • Os gregos procuraram nestas eleições uma solução governativa, polarizando os seus votos em duas formações políticas, tomadas como as mais capazes ou, com maior probabilidade, de dirigir essa solução. O voto na Nova Democracia representa a procura da continuidade com receio de uma rotura com o memorando da troika. O voto no Syriza significa a aposta na rotura com receio do agravamento resultante da continuidade desse memorando;

  • A questão é que a realidade vai trazer um governo de direita, que  protagonizará a aplicação de um agravamento das condições de vida através da continuidade do memorando e da submissão aos interesses do “mercado”, do capital financeiro, ao ritmo marcado pelos tenores das agências de “rating” que se elevam sobre o ensurdecedor coro dos governos e burocratas europeus;

  • É de admitir, porém, que surjam novas manobras “salvadoras”, classificadas de definitivas, pela parte do capital financeiro e dos seus funcionários, passado (temporariamente?) o susto grego; como aliás foi revelado em primeira mão pela subida das cotações nas bolsas. Essas manobras tentarão modificar algo para que tudo continue na mesma; e, de facto, continua por se saber como anular valores astronómicos de dívida – pública e privada – gerados pela incúria do sistema financeiro e pelos seus governos nacionais, sem promover a destruição desse próprio sistema, arrastado por falências de bancos em cascata. Hollande parece ser a figura típica da mudança, na mais estrita continuidade sistémica. Note-se que atualmente não é a Grécia o principal problema do poder global mas, a Espanha; para o efeito, abriram-se vários mealheiros no conclave do G20, no México e o FMI recolheu € 361000 M para se precaver;

  • Como irão reagir os gregos? Quantos, nos próximos meses de austeridade imposta pela troika e executada pelo governo de direita, perderão o medo e se sentirão mais próximos de um ativo repúdio do memorando? Manter-se-á o equilíbrio entre a diversidade de sensibilidades de esquerda que constituem o Syriza? Manter-se-á o seu programa de rotura ou alastrarão alguns sinais de menos firmeza programática observados nos dias anteriores às eleições de dia 17? Para já, o Syriza tomou a única atitude coerente, depois de assumir a vitória eleitoral da Nova Democracia – não participará num governo de direita e assumirá a oposição;

  • Para além do Syriza, nas ruas, entre os diversos grupos autónomos que posições se irão assumir, após o periodo eleitoral? Contestação radical como reação ao governo de direita e à maioria parlamentar que o suportará? Atitudes radicais contra os fascistas e a impunidade dos seus crimes contra imigrantes? E será o Syriza capaz de manter o diálogo e uma concertação estratégica com a contestação de rua?

  • E no resto da Europa, mormente nos outros países colonizados pela troika ou, sob a mira dos “mercados”, surgirá algo de mais consistente e duradouro no campo da contestação de rua e política? A pluralidade de grupos e movimentos de massas, como por exemplo, os indignados, os mineiros asturianos, os manifestantes alemães, os anarquistas, os ecologistas, os desempregados… serão capazes de uma ação concertada, permanente e radical, que vá para além de manifestações simultâneas em vários locais (15 de maio ou 15 de outubro de 2011)? E como aprofundar ligações com os povos das margens sul e oriental do Mediterrâneo, a braços com o desencanto perante as descendências dos regimes de Mubarak, Ben Ali ou Kadhafi? [1]


Acordes de esquerda menor, portuguesa

Como dissemos em análise efetuada após as eleições gregas de maio [2], a esquerda institucional portuguesa é constituida por duas formações perfeitamente inseridas no “establishment” político e dependentes do financiamento público; portanto, mais dedicadas à manutenção do sistema político, económico e social, do que na constituição de uma alternativa a esse mesmo sistema, opressor, autoritário e corrupto.

Essa lusa esquerda institucional,

  • Apresenta-se com uma lógica produtivista, de crescimento económico, sem falarem seriamente de redistribuição da riqueza – a mais iníqua da Europa ocidental;

  • Nada apresenta de mobilizador para a alteração do sistema político e de representação, por mais anti-democrático e propiciador de corrupção que ele seja;

  • Quanto à dívida pública acena para uma renegociação da mesma com a “troika” e que não pode protagonizar, apresentando como entretenimento mediático uma auditoria cidadã que pouco vai além de um site de banalidades e transcrições;

  • Ignora o anti-militarismo como componente de qualquer formação progressista de hoje;

  • Recusa-se a encarar de frente a insuficiência de um movimento sindical sectário e ineficaz para o reforço da união de trabalhadores e ex-trabalhadores, desempregados e imigrantes;

  • Mantém a postura leninista da imprescindibilidade do Partido, como pai severo a que todos se devem submeter, arrogando-se ao direito de controlar todos os protestos e movimentos, se necessário em ligação com a polícia;

  • Resume-se a lançar a confusão junto da multidão, apresentando banais soluções de caráter keynesiano, como se se tratassem de medidas anti-capitalistas. Aliás, a palavra capitalismo é uma referência pouco comum nas arengas dos lideres da esquerda do sistema; o que é, aliás, perfeitamente coerente com as suas propostas em geral.